Simone de Oliveira: a mulher que nunca precisou de caber

Há artistas que ficam associadas a uma canção. Simone de Oliveira tem uma dessas canções. Mas reduzir mais de seis décadas de palco a três minutos de música seria perder a parte mais interessante da história: a de uma mulher que cantou, representou, perdeu a voz, regressou, envelheceu diante do público e nunca pareceu particularmente interessada em transformar-se naquilo que esperavam dela.

Há uma frase que Portugal reconhece.

Mesmo quem não sabe a canção inteira provavelmente já a ouviu:

“Quem faz um filho, fá-lo por gosto.”

Portugal vivia ainda sob ditadura.

A guerra colonial continuava.

A censura existia.

A moral pública era conservadora.

A sexualidade feminina dificilmente aparecia celebrada numa canção transmitida para milhões de pessoas.

E então surgiu Simone de Oliveira.

De vestido preto.

Cabelo curto.

Voz grave.

A cantar Desfolhada Portuguesa.

Hoje pode ser difícil perceber o impacto.

Na altura, aquela frase não passou despercebida.

Mas a história de Simone não começa ali.

E, sobretudo, não termina ali.

Antes da Desfolhada

Simone de Macedo e Oliveira nasceu em Lisboa, a 11 de fevereiro de 1938.

Filha de mãe belga e pai português, cresceu numa família onde a música estava presente, embora o destino artístico não estivesse necessariamente traçado.

A carreira profissional começou no final da década de 1950.

A rádio tinha então um poder difícil de imaginar para quem cresceu com televisão, internet e plataformas digitais.

Era através dela que vozes entravam diariamente nas casas portuguesas.

Simone começou a ser ouvida.

E havia alguma coisa naquela voz.

Não era particularmente delicada.

Não correspondia à ideia convencional de uma voz feminina ligeira.

Era grave.

Reconhecível.

Com presença.

Décadas depois, bastariam ainda poucas palavras para sabermos quem estava a cantar.

Uma voz que não parecia com as outras

Isto é importante.

A diferença pode ser uma dificuldade antes de se transformar numa identidade.

Simone não tinha a voz que poderíamos esperar de muitas cantoras populares da época.

Mas aquilo que poderia ter sido uma limitação tornou-se assinatura.

Não precisou de soar como as outras.

Precisou de descobrir o que fazer com aquilo que tinha.

A carreira cresceu rapidamente.

No início dos anos 60, Simone já era uma das vozes conhecidas da música portuguesa.

E em 1965 aconteceu uma coisa que a levaria muito além de Portugal.

Antes de Desfolhada, houve Sol de Inverno

Em 1965, Simone venceu o Festival RTP da Canção com “Sol de Inverno”, de Jerónimo Bragança e Nóbrega e Sousa.

Representou Portugal no Festival Eurovisão da Canção, em Nápoles.

Não venceu.

Nem precisava.

A participação consolidou-a como uma das grandes intérpretes portuguesas daquele período.

Quatro anos depois regressaria à Eurovisão.

Desta vez com uma canção que entraria definitivamente na memória coletiva portuguesa.

1969

“Desfolhada Portuguesa”.

Letra de Ary dos Santos.

Música de Nuno Nazareth Fernandes.

Cantada por Simone de Oliveira.

A canção venceu o Festival RTP da Canção de 1969 e levou Simone novamente à Eurovisão, realizada nesse ano em Madrid.

Mas aquilo que aconteceu em Portugal foi maior do que o resultado internacional.

Desfolhada Portuguesa tornou-se um fenómeno.

E uma frase concentrou grande parte da atenção:

“Quem faz um filho, fá-lo por gosto.”

Pode parecer pouco.

Não era.

Uma mulher podia dizer que o desejo existia

Portugal vivia sob o Estado Novo.

A sexualidade estava fortemente condicionada pela moral dominante.

À mulher eram atribuídos papéis sociais muito concretos.

Esposa.

Mãe.

Cuidadora.

Guardadora da respeitabilidade familiar.

A maternidade podia ser exaltada.

O desejo feminino era outra conversa.

E Desfolhada fazia uma coisa particularmente interessante.

Ligava a criação de um filho ao prazer.

Ao gosto.

Ao desejo.

Não apresentava simplesmente a mulher como recipiente passivo da maternidade.

Havia vontade.

Corpo.

Escolha verbal.

E era uma mulher que o cantava.

Na televisão.

Em horário nobre.

Para o país.

Mas Simone não escreveu a frase

Também isto importa.

A letra era de José Carlos Ary dos Santos.

Não devemos atribuir a Simone palavras que não escreveu.

O que ela fez foi outra coisa.

Interpretou-as.

Deu-lhes corpo.

Voz.

Presença.

Uma canção não pertence apenas a quem escreve a letra ou compõe a música.

Existe também através de quem a interpreta.

E é difícil imaginar Desfolhada Portuguesa separada daquela voz.

Simone sabia fazer uma coisa que os grandes intérpretes fazem:

não precisava de ter escrito as palavras para fazer com que parecessem inevitavelmente suas.

A Eurovisão correu mal

Portugal tinha enormes expectativas.

A canção era popular.

Simone era uma intérprete consagrada.

Mas em Madrid o resultado foi dececionante.

Portugal terminou perto do fundo da classificação.

É um daqueles momentos que mostram como rankings e legado são coisas diferentes.

Décadas depois, poucas pessoas saberão dizer quais foram todas as canções que ficaram à frente de Desfolhada Portuguesa.

Em Portugal, Desfolhada continua a ser cantada.

Um concurso mede um momento.

A memória cultural mede outra coisa.

Depois veio uma ameaça muito mais séria

Uma cantora depende da voz.

Parece óbvio.

Até a voz deixar de estar garantida.

Na década de 1970, Simone enfrentou problemas graves nas cordas vocais.

Foi operada.

E houve um momento em que a continuidade da carreira como cantora ficou seriamente ameaçada.

Para alguém cuja identidade profissional tinha sido construída em torno da voz, isto podia ter significado o fim.

Mas a vida artística de Simone tinha mais do que uma porta.

E ela abriu outra.

Se a voz falha, o palco continua

Simone aproximou-se cada vez mais do teatro.

E aqui a história torna-se especialmente interessante.

Porque não se tratou simplesmente de uma cantora que ocasionalmente fazia representação.

Construiu também uma carreira como atriz.

Teatro.

Musical.

Televisão.

Cinema.

O palco continuava.

Mudava a forma.

Ao longo das décadas, Simone trabalhou com importantes encenadores e integrou numerosas produções teatrais e musicais.

A interpretação que já existia nas canções encontrou outro território.

Talvez nunca tenham sido profissões tão separadas quanto parecem.

Uma grande cantora também interpreta.

Uma atriz também precisa de ritmo, pausa, respiração e presença.

Simone tinha tudo isso.

E a voz voltou

Depois dos problemas vocais, Simone voltou a cantar.

Não exatamente como se nada tivesse acontecido.

Isso talvez seja o mais interessante.

Uma carreira longa não é uma linha contínua de sucesso.

Há interrupções.

Mudanças.

Perdas.

Adaptações.

Regressos.

O instrumento envelhece.

O corpo muda.

A indústria muda.

O público muda.

O país muda.

A artista também.

A questão não é permanecer igual.

É descobrir o que continua possível.

Simone descobriu.

Entretanto, Portugal tornou-se outro país

Quando Simone começou a cantar profissionalmente, Portugal vivia numa ditadura.

Quando cantou Desfolhada, Marcello Caetano era Presidente do Conselho.

Depois veio o 25 de Abril.

A democracia.

A descolonização.

Novas televisões.

Novos géneros musicais.

Novas gerações.

A entrada na Europa.

A internet.

As redes sociais.

O streaming.

Simone atravessou tudo isto artisticamente.

Há carreiras que pertencem a uma época.

A dela atravessou várias.

E isso exige mais do que talento.

Exige capacidade de permanecer reconhecível sem ficar congelada no tempo.

Não quis ser apenas cantora

Talvez uma das razões da longevidade esteja aí.

Simone não ficou dependente de uma única forma de expressão.

Cantou.

Representou.

Fez televisão.

Participou em musicais.

Interpretou textos de outros.

Voltou repetidamente ao palco.

A carreira tornou-se menos uma sequência de êxitos discográficos e mais uma vida inteira de interpretação.

Essa diferença importa.

Porque permite compreender Simone para além da lógica da estrela pop.

Ela tornou-se uma mulher de palco.

E também falou

Muito.

Quem conhece Simone fora das canções conhece outra característica.

A frontalidade.

Ao longo dos anos, deu entrevistas sobre carreira, idade, relações, doença, corpo, filhos, escolhas, dificuldades e envelhecimento.

Nem sempre com respostas cuidadosamente preparadas para agradar.

Isso ajudou a construir uma relação particular com o público.

Simone não parecia interessada em criar a ilusão de uma vida perfeita.

E isso é especialmente significativo numa cultura que frequentemente exige às mulheres públicas uma combinação impossível:

serem interessantes, mas não demasiado.

Bonitas, mas naturais.

Fortes, mas simpáticas.

Envelhecerem, mas sem parecer envelhecidas.

Falarem, mas não demasiado.

Simone envelheceu diante de Portugal.

Sem desaparecer.

Uma mulher envelhece. E depois?

Esta talvez seja uma das partes mais interessantes da sua história.

A indústria do entretenimento tem uma relação difícil com o envelhecimento feminino.

Homens mais velhos podem tornar-se veteranos.

Referências.

Mestres.

Mulheres mais velhas desaparecem frequentemente do centro da imagem.

Simone não desapareceu.

Continuou a subir ao palco.

A dar entrevistas.

A representar.

A cantar.

A ser homenagead

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