Maria de Sousa: a cientista que quis saber como as células encontram o seu lugar

Há perguntas científicas que parecem pequenas até percebermos o tamanho da resposta. Maria de Sousa quis compreender como determinadas células do sistema imunitário sabiam para onde ir. A investigação levou-a de Portugal a Londres, Glasgow e Nova Iorque, colocou o seu nome na história da imunologia e acabou por trazê-la de volta ao país onde nascera. Mas o legado de Maria de Sousa não está apenas naquilo que descobriu. Está também nos cientistas que ajudou a formar.

Imagine milhões de células a circularem pelo organismo.

Não estão simplesmente perdidas.

Algumas parecem saber onde devem chegar.

Reconhecem determinados territórios.

Instalam-se em zonas específicas.

Encontram outras células.

Interagem.

Organizam-se.

Mas como?

Na década de 1960, uma jovem médica portuguesa começou a observar este fenómeno.

Chamava-se Maria de Sousa.

E aquela pergunta acompanhá-la-ia durante décadas.

Medicina foi o princípio. Não o destino.

Maria de Sousa nasceu em Lisboa, a 17 de outubro de 1939.

Estudou Medicina na Universidade de Lisboa e concluiu o curso em 1963.

Podia ter seguido uma carreira clínica.

Escolheu outra coisa.

A investigação.

Naquele Portugal, esta não era uma escolha particularmente óbvia.

Muito menos para uma jovem mulher que pretendia construir uma carreira científica internacional.

Mas Maria saiu.

Entre 1964 e 1968 foi bolseira de pós-graduação da Fundação Calouste Gulbenkian em Londres.

E foi aí que começou a acontecer aquilo que transformaria a sua carreira.

Onde vão parar as células?

Maria trabalhou no laboratório da imunologista britânica Delphine Parrott.

O sistema imunitário estava então a ser compreendido de maneiras completamente novas.

Hoje ouvimos falar naturalmente de linfócitos T.

Na década de 1960, a ciência estava ainda a desvendar como estas células se desenvolviam, circulavam e se organizavam.

Maria observou que células derivadas do timo migravam para zonas muito específicas dos órgãos linfoides periféricos.

Não se distribuíam ao acaso.

Tinham destinos preferenciais.

Em 1966, publicou com colegas trabalhos fundamentais sobre aquilo que hoje conhecemos como áreas dependentes do timo, ou zonas T, nos órgãos linfoides.

Pode parecer extremamente técnico.

Mas a pergunta por detrás da descoberta é bastante simples:

como sabe uma célula onde deve estar?

Ecotaxis

Maria continuou a investigar.

Em 1971 descreveu e deu um nome ao fenómeno que estava a observar:

ecotaxis.

A palavra combinava uma ideia de habitat com uma ideia de movimento orientado.

As células não existiam isoladas.

Tinham uma relação com o ambiente.

Determinadas células migravam e organizavam-se em lugares específicos dos tecidos linfoides.

Hoje, quando sabemos tanto mais sobre microambientes celulares, migração, comunicação entre células e relação entre células e tecidos, talvez seja difícil perceber como era inovador pensar desta maneira.

Maria estava a olhar para o sistema imunitário não apenas como um conjunto de células.

Estava a olhar para relações entre células e lugares.

E essa maneira de pensar acompanharia toda a sua carreira.

Uma célula também tem contexto

Esta talvez seja uma das ideias mais bonitas da ciência de Maria de Sousa.

Não precisamos de a transformar numa metáfora para perceber a sua importância.

Uma célula não pode ser completamente compreendida sem percebermos onde está.

Com que células interage.

Que sinais recebe.

Que ambiente a rodeia.

Para onde migra.

O que acontece quando chega.

A biologia não é apenas uma lista de componentes.

É também organização.

Relação.

Contexto.

Maria percebeu muito cedo a importância desse território.

Glasgow

Depois do trabalho em Londres, Maria seguiu para a Universidade de Glasgow.

Foi docente.

Prosseguiu a investigação.

E concluiu o doutoramento em Imunologia.

Continuou a estudar migração e interação celular.

Trabalhou também sobre adesão entre células e sobre a forma como diferentes populações celulares se relacionavam.

A jovem médica portuguesa tinha-se transformado definitivamente numa imunologista.

E a carreira ainda a levaria mais longe.

Nova Iorque

Maria mudou-se posteriormente para os Estados Unidos.

Em Nova Iorque esteve ligada à Cornell Medical College e ao Memorial Sloan Kettering Cancer Center, onde chegou a dirigir um laboratório dedicado à ecologia celular.

É importante perceber o que isto significa.

Estamos a falar de uma cientista portuguesa a construir uma carreira internacional numa época em que Portugal tinha ainda uma comunidade científica muito menor e muito menos internacionalizada do que aquela que conhecemos hoje.

E de uma mulher a fazê-lo num universo académico e científico em que os lugares de liderança eram predominantemente masculinos.

Mas talvez a melhor forma de contar Maria de Sousa não seja simplesmente repetir que “venceu barreiras”.

É perceber aquilo que fez quando chegou aos laboratórios.

Continuou a perguntar.

Do sistema imunitário ao ferro

Enquanto trabalhava nos Estados Unidos, Maria estudou também alterações do sistema imunitário associadas à doença de Hodgkin em crianças.

Esses trabalhos ajudaram-na a formular outra hipótese.

E se o sistema imunitário tivesse também alguma relação com a forma como o organismo lida com a toxicidade provocada pelo ferro?

Era uma ideia inesperada.

Mas Maria decidiu segui-la.

A pergunta acabaria por conduzi-la à hemocromatose hereditária, uma doença genética caracterizada pela acumulação excessiva de ferro no organismo.

Mais uma vez, duas áreas que podiam parecer separadas começavam a conversar.

Imunologia.

Metabolismo do ferro.

Maria queria perceber a relação.

Em 1985, regressou

Depois de construir uma carreira científica no Reino Unido e nos Estados Unidos, Maria de Sousa tomou uma decisão importante.

Regressou a Portugal.

Em 1985, voltou para trabalhar no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto.

Trouxe consigo a linha de investigação sobre hemocromatose.

E começou a construir qualquer coisa maior do que o seu próprio laboratório.

Este regresso é uma parte essencial da história.

Porque Maria já tinha uma carreira internacional.

Podia ter continuado fora.

Regressar significava também participar na construção da ciência portuguesa.

E foi isso que fez.

Um laboratório não chega

Maria percebeu uma coisa fundamental.

Um país não constrói ciência apenas contratando bons investigadores.

Precisa de formar outros.

Precisa de criar redes.

Programas.

Laboratórios.

Condições para fazer perguntas.

Condições para errar.

Condições para sair para aprender.

E condições para regressar.

No Porto, Maria fundou o Mestrado em Imunologia do ICBAS e participou na criação de uma equipa de investigação dedicada à hemocromatose, envolvendo o ICBAS, o Hospital Geral de Santo António e o então recém-criado Instituto de Biologia Molecular e Celular.

A cientista começava também a construir escola.

GABBA

Em 1996, Maria de Sousa esteve na origem de outro projeto que teria enorme importância na formação científica portuguesa:

o Programa Doutoral em Biologia Básica e Aplicada — GABBA.

O programa reuniu várias instituições da Universidade do Porto e centros de investigação.

Tinha uma ideia particularmente ambiciosa para a época:

formar jovens investigadores em ambiente internacional, permitindo-lhes contactar com ciência de excelência e desenvolver percursos que atravessassem fronteiras institucionais e geográficas.

Muitos dos estudantes formados nesse ecossistema construíram depois carreiras científicas em Portugal e no estrangeiro.

E aqui começamos a perceber outra dimensão de Maria de Sousa.

Uma cientista pode deixar artigos.

Descobertas.

Conceitos.

Mas pode deixar também pessoas capazes de continuar a fazer ciência.

Talvez esse seja um dos legados mais poderosos que existem.

Ciência não é saber. É continuar a perguntar.

Há uma ideia sobre os grandes cientistas que pode enganar-nos.

Imaginamo-los como pessoas que sabem muito.

Claro que sabem.

Mas aquilo que distingue investigação de conhecimento acumulado é outra coisa.

A capacidade de encontrar aquilo que ainda não sabemos.

Maria de Sousa construiu uma carreira precisamente aí.

Observou células e perguntou por que razão estavam naquele lugar.

Encontrou padrões e perguntou o que significavam.

Viu uma possível relação entre imunidade e ferro e decidiu persegui-la.

A investigação não avançava porque já tinha respostas.

Avançava porque as respostas abriam novas perguntas.

Décadas depois, colegas e instituições que trabalharam com ela continuariam a destacar essa curiosidade intelectual.

Maria nunca parecia considerar o conhecimento terminado.

Uma mulher na ciência

É tentador escrever a história de Maria de Sousa apenas como a de “uma mulher que venceu num mundo de homens”.

Seria pouco.

O género importa.

Maria construiu a carreira numa época em que as mulheres estavam muito menos representadas nas posições superiores da investigação científica.

Foi uma das primeiras cientistas portuguesas a alcançar reconhecimento internacional.

Isso tem significado histórico.

Mas não precisamos de transformar cada descoberta sua numa vitória sobre os homens.

Maria merece ser conhecida pela ciência que fez.

E talvez exista aí uma forma ainda mais importante de reconhecimento.

Não dizer:

“Era excelente apesar de ser mulher.”

Mas simplesmente:

era uma excelente cientista.

E escrevia poesia

Há outra Maria de Sousa que talvez surpreenda quem apenas conhece a imunologista.

Escrevia poesia.

Escrevia ensaios.

Interessava-se profundamente por literatura, arte e cultura.

A Gulbenkian recordou-a não apenas como cientista, mas também como poeta e autora.

Não existe aqui necessariamente uma contradição.

Ciência e poesia fazem coisas diferentes.

Usam métodos diferentes.

Respondem a critérios diferentes.

Mas ambas podem começar num gesto semelhante:

prestar atenção.

Olhar para uma coisa que outros já viram e perguntar se estamos realmente a compreendê-la.

Maria parecia ter curiosidade suficiente para os dois mundos.

O reconhecimento

O trabalho científico e académico de Maria de Sousa foi distinguido ao longo das décadas.

Recebeu, entre outras distinções, o Prémio Bial de Mérito em Ciências Médicas, o Prémio Universidade de Coimbra e o Prémio Universidade de Lisboa.

Em 2016 foi distinguida com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.

Recebeu também o Mina J. Bissell Award, atribuído a cientistas cuja carreira contribuiu para transformar a forma como compreendemos uma determinada área da ciência.

Em 2009 aposentou-se.

No ano seguinte foi nomeada Professora Emérita da Universidade do Porto.

Mas aposentação não significou desaparecimento intelectual.

Continuou ligada à ciência.

A pensar.

A escrever.

A participar.

2020

Então chegou uma doença nova.

O mundo começou a ouvir diariamente palavras que antes pertenciam sobretudo aos laboratórios e às faculdades.

Imunidade.

Anticorpos.

Linfócitos.

Resposta imunitária.

Infeção.

Vacina.

E, numa coincidência particularmente dura, uma das mais importantes imunologistas portuguesas foi infetada pelo novo coronavírus.

Maria de Sousa morreu em Lisboa, a 14 de abril de 2020, vítima de COVID-19.

Tinha 80 anos.

É difícil não reparar na ironia.

Mas não devemos deixar que ela engula a vida.

Maria de Sousa não é importante porque uma imunologista morreu durante uma pandemia.

É importante por tudo aquilo que fez antes dela.

Quando uma cientista morre, a ciência não termina

Talvez esta seja a parte mais extraordinária da história.

Um escritor deixa livros.

Um pintor deixa quadros.

Uma cantora deixa gravações.

O que deixa uma cientista?

Artigos, claro.

Descobertas.

Conceitos.

Dados.

Mas também métodos.

Perguntas.

Laboratórios.

Programas de formação.

Alunos.

Alunos dos alunos.

Colaboradores.

Redes científicas.

Pessoas que aprenderam a pensar de determinada maneira.

No caso de Maria de Sousa, esse legado é particularmente visível.

Muitos investigadores formados nos programas e ambientes científicos que ajudou a criar seguiram carreiras internacionais e criaram, por sua vez, novos grupos de investigação.

A ciência reproduz-se assim.

Não apenas através das descobertas.

Através das pessoas.

E o nome dela continua a abrir portas

Depois da sua morte foi criado o Prémio Maria de Sousa, promovido pela Ordem dos Médicos e pela Fundação BIAL.

O objetivo é apoiar jovens investigadores portugueses na área das Ciências da Saúde, incluindo a possibilidade de desenvolverem trabalho em centros internacionais de excelência.

Há alguma coisa particularmente adequada nisso.

Uma cientista que saiu de Portugal para aprender.

Que construiu uma carreira internacional.

Que regressou.

Que criou programas para permitir que outros jovens investigadores circulassem pelo mundo.

E cujo nome serve agora para ajudar novas gerações a fazer precisamente isso.

Um legado não precisa de ser uma estátua.

Pode ser uma oportunidade.

Talvez “ecotaxis” ainda nos ensine alguma coisa

Maria criou a palavra para descrever um fenómeno biológico.

Não precisamos de transformar ciência em poesia para reconhecer a beleza da ideia.

As células movem-se.

Procuram determinados ambientes.

Reconhecem lugares.

Relacionam-se com aquilo que as rodeia.

Encontram condições onde podem desempenhar a sua função.

Maria passou décadas a estudar essas relações.

E, de certa forma, fez também outra coisa durante a sua carreira:

criou lugares onde cientistas podiam encontrar condições para crescer.

Laboratórios.

Cursos.

Programas.

Redes.

Comunidades científicas.

Não é uma equivalência científica.

É apenas uma coincidência bonita entre aquilo que estudou e aquilo que construiu.

Porque devemos conhecer Maria de Sousa?

Porque Portugal conhece demasiado pouco os seus cientistas.

E talvez conheça ainda menos as suas cientistas.

Sabemos nomes de escritores.

Cantores.

Futebolistas.

Políticos.

A ciência raramente produz celebridades da mesma maneira.

Mas algumas das transformações mais profundas da nossa vida acontecem em laboratórios que nunca veremos.

Maria de Sousa pertence à história desse conhecimento.

O seu trabalho ajudou a compreender melhor a organização funcional do sistema imunitário.

Investigou a relação entre imunidade e metabolismo do ferro.

Construiu uma carreira científica internacional.

Regressou.

Formou.

Criou.

E deixou estruturas capazes de continuar sem ela.

Porque é uma Mulher Incrível?

Não porque tenha sido uma mulher num mundo de homens.

Não porque tenha acumulado prémios.

Não porque tenha morrido durante uma pandemia relacionada com a área científica a que dedicou a vida.

E não porque precisemos de transformar cientistas em heroínas.

Maria de Sousa merece ser conhecida porque fez perguntas que ajudaram a mudar a nossa compreensão do sistema imunitário e porque percebeu que fazer ciência também significa criar condições para que outros possam fazê-la.

Descobriu.

Questionou.

Ensinou.

Regressou.

Construiu equipas.

Criou programas.

Formou i

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