Sophia de Mello Breyner Andresen: a mulher que procurava a palavra justa

Escreveu sobre o mar, a infância, as casas, a Grécia, a liberdade e a justiça. Mas talvez exista uma palavra capaz de atravessar quase toda a obra e a vida de Sophia de Mello Breyner Andresen: verdade. Procurou-a na poesia. E procurou-a também na forma de estar no mundo.

Há escritores que parecem ter inventado certas palavras.

Não porque tenham sido os primeiros a usá-las.

Mas porque, depois deles, já não conseguimos ouvi-las exatamente da mesma maneira.

Mar.

Casa.

Praia.

Noite.

Jardim.

Justiça.

Liberdade.

Em Portugal, algumas dessas palavras têm inevitavelmente qualquer coisa de Sophia.

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, a 6 de novembro de 1919.

Morreu em Lisboa, em 2004.

Entre uma data e outra construiu uma das obras fundamentais da literatura portuguesa contemporânea.

Foi poeta.

Contista.

Autora de literatura para crianças.

Tradutora.

Ensaísta.

Interveniente cívica.

Resistente à ditadura.

Deputada.

E foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões.

Mas talvez devamos começar antes de tudo isso.

Antes dos livros.

Quando Sophia ainda nem sabia ler.

Primeiro, ouviu a poesia

Sophia contou que o seu primeiro encontro com a poesia aconteceu antes da leitura.

Ainda criança, ouviu uma criada recitar A Nau Catrineta.

Aprendeu o poema de cor.

Talvez seja um detalhe pequeno.

Mas ajuda a compreender uma escritora para quem a poesia nunca foi apenas uma coisa impressa numa página.

Era som.

Ritmo.

Memória.

Palavra dita.

Sophia cresceu no Porto, numa família de origem dinamarquesa pelo lado paterno, num ambiente privilegiado e culturalmente estimulante.

A infância ficou profundamente ligada a dois lugares.

A casa do Campo Alegre, no Porto.

E a praia da Granja.

O jardim.

As árvores.

A casa.

O mar.

A luz.

Os objetos.

Décadas depois, essas imagens continuariam a aparecer na sua escrita.

Não como simples recordações de infância.

Como matéria poética.

O mar não era cenário

É quase impossível falar de Sophia sem falar do mar.

Mas talvez tenhamos repetido tanto essa associação que deixámos de perguntar porquê.

O mar de Sophia não é apenas uma paisagem bonita.

É espaço.

Movimento.

Grandeza.

Perigo.

Liberdade.

Clareza.

Mistério.

A natureza, na sua obra, não existe apenas para decorar emoções humanas.

Tem presença própria.

Pedras, árvores, praias, vento, noite, jardins e água são coisas concretas.

Sophia olha para elas com uma atenção quase radical.

E essa atenção ajuda-nos a compreender uma ideia fundamental da sua escrita:

ver bem também é uma forma de conhecer.

Não acrescentar ao mundo aquilo que queremos que ele seja.

Olhar.

Escutar.

Nomear.

Encontrar a palavra certa.

Uma mulher à procura do real

Em 1937, Sophia foi para Lisboa estudar Filologia Clássica na Faculdade de Letras.

Não concluiu o curso.

Mas a cultura grega tornou-se uma presença fundamental na sua obra.

Grécia.

Mitologia.

Harmonia.

Justiça.

Beleza.

Proporção.

O Mediterrâneo.

A relação entre o ser humano e o mundo.

Tudo isso atravessaria a sua poesia.

Em 1944 publicou o primeiro livro, Poesia.

Tinha 24 anos.

Seguiram-se títulos que se tornariam fundamentais na literatura portuguesa: Dia do Mar, Coral, No Tempo Dividido, Mar Novo, Livro Sexto, Geografia, Dual, O Nome das Coisas e muitos outros.

A escrita era depurada.

Poucas palavras parecem estar ali por acaso.

Sophia procurava precisão.

E essa procura não era apenas estética.

Era também ética.

Para ela, a poesia estava ligada a uma tentativa de relação verdadeira com o real.

Isso ajuda a explicar por que razão, na sua vida, literatura e cidadania acabariam por se encontrar.

Quando procurar a palavra justa também significa procurar justiça

Sophia nasceu numa família privilegiada.

É importante dizê-lo.

A sua história não é a de uma mulher impedida de aceder à cultura ou à educação.

Teve condições que a maioria das mulheres portuguesas do seu tempo não teve.

Mas uma biografia não termina nas circunstâncias em que começa.

Sophia tornou-se uma voz ativa contra o Estado Novo.

Casou, em 1946, com o advogado e jornalista Francisco Sousa Tavares, também opositor do regime.

Ao longo das décadas seguintes, a sua intervenção cívica intensificou-se.

Apoiou a candidatura presidencial de Humberto Delgado em 1958.

Participou em movimentos de oposição.

Esteve ligada à Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos.

E teve um papel importante no Centro Nacional de Cultura, instituição que, durante os anos finais da ditadura, se tornou um espaço de encontro, debate e resistência cultural.

Em 1965, Sophia assumiu a presidência do Centro.

Nesse mesmo período, depois de o Estado Novo extinguir a Sociedade Portuguesa de Escritores, abriu as portas do Centro a intelectuais e criadores que tinham ficado sem aquele espaço.

A poesia continuava.

Mas a poeta também estava na vida pública.

A beleza nunca foi suficiente

Talvez este seja um dos aspetos mais interessantes de Sophia.

A sua poesia está cheia de beleza.

Mas não é uma beleza indiferente.

O mundo pode ser luminoso e estar profundamente errado.

Uma praia pode ser perfeita e existir injustiça ao lado.

Uma casa pode ser harmoniosa e o país não ser livre.

Sophia recusou essa separação confortável.

A procura de uma relação justa com as coisas conduzia, para ela, à procura de uma relação justa entre pessoas.

Por isso, na sua obra, palavras como verdade, justiça, liberdade e inteireza não são acessórios políticos acrescentados posteriormente à poesia.

Fazem parte da mesma exigência.

Ver claramente.

Nomear corretamente.

Não aceitar a mentira como normalidade.

Também escreveu para crianças

Há crianças portuguesas que conheceram Sophia muito antes de saberem quem era Sophia.

Conheceram uma menina que vivia no mar.

Um rapaz chamado Manuel.

Um cavaleiro que regressava a casa.

Uma fada chamada Oriana.

A Menina do Mar.

A Fada Oriana.

O Cavaleiro da Dinamarca.

A Floresta.

O Rapaz de Bronze.

História da Gata Borralheira.

Os seus livros para crianças tornaram-se parte da memória de várias gerações.

E talvez seja um erro considerá-los uma parte menor da sua obra.

Sophia não escrevia para crianças como quem simplifica o pensamento.

Escrevia histórias onde existem escolhas, consequências, liberdade, responsabilidade, beleza, medo, coragem, justiça e relação com o mundo.

Não escrevia “menos” porque os leitores eram mais pequenos.

Escrevia de outra maneira.

25 de Abril de 1974

Depois aconteceu aquilo por que Sophia e tantos outros tinham esperado.

A ditadura caiu.

A Revolução de 25 de Abril de 1974 tornou-se imediatamente matéria da sua escrita.

É dela um dos poemas mais reconhecíveis associados àquele momento, “25 de Abril”.

O poema começa com uma imagem que atravessou gerações:

“Esta é a madrugada que eu esperava”

Poucas palavras.

Nenhuma ornamentação desnecessária.

Depois de quase meio século de ditadura, a liberdade aparece como manhã.

Não como teoria.

Como experiência.

A frase “A poesia está na rua”, escrita por Sophia e celebrizada num cartaz de Maria Helena Vieira da Silva, tornar-se-ia também uma das imagens culturais mais reconhecidas da Revolução.

Duas mulheres.

Uma poeta.

Uma pintora.

E uma frase que conseguiu dizer alguma coisa sobre aquele momento que nenhum discurso político conseguiria dizer da mesma maneira.

Da poesia para o Parlamento

Sophia não ficou apenas a observar a construção da democracia.

Participou nela.

Nas primeiras eleições livres depois da Revolução, realizadas a 25 de abril de 1975, foi eleita deputada pelo Partido Socialista à Assembleia Constituinte, pelo círculo do Porto.

Foi uma das mulheres que participaram diretamente na elaboração da nova ordem democrática portuguesa.

E há um pormenor extraordinário.

Sophia presidiu à Comissão para a Redação do Preâmbulo da Constituição.

A poeta que passara décadas à procura da palavra exata participou agora na construção das palavras que apresentariam a Constituição da democracia portuguesa.

O preâmbulo aprovado em 1976 mantém-se.

É difícil imaginar encontro mais claro entre literatura e cidadania.

A palavra tinha sido durante toda a vida o seu instrumento.

Naquele momento, também ajudava a escrever um país.

Mas Sophia não se tornou uma política profissional

A experiência parlamentar foi relativamente breve.

A política partidária não se tornou o centro da sua vida.

As suas principais preocupações parlamentares estiveram ligadas à cultura, à educação, à criação artística e às condições necessárias para uma verdadeira democracia cultural.

Depois regressou sobretudo àquilo que sempre fizera.

Escrever.

Intervir.

Pensar.

Participar quando considerava necessário.

Isto também é interessante.

Participação política não significa necessariamente construir uma carreira política.

Há muitas maneiras de ocupar o espaço público.

Sophia encontrou a sua.

Uma escritora não é apenas poeta

Quando dizemos “Sophia”, pensamos imediatamente em poesia.

Mas a obra é muito mais ampla.

Escreveu contos.

Histórias para crianças.

Ensaios.

Textos políticos.

Traduziu autores como Dante e Shakespeare.

Escreveu sobre Camões.

Sobre arte.

Sobre literatura.

Sobre a condição do escritor.

Sobre liberdade.

A sua escrita atravessou géneros sem perder uma identidade reconhecível.

Talvez porque, por baixo das diferentes formas, permaneciam algumas perguntas.

Como viver sem nos separarmos do mundo?

Como distinguir o verdadeiro do falso?

O justo do injusto?

O inteiro do fragmentado?

Como encontrar a palavra que não traia aquilo que estamos a tentar dizer?

Uma mulher não precisa de vir de fora do privilégio para questioná-lo

Também vale a pena não transformar Sophia numa personagem que não foi.

Nasceu numa família abastada.

Cresceu rodeada de cultura.

Teve acesso à educação.

Casou e teve cinco filhos.

Não precisamos de esconder essas condições para tornar a sua história mais extraordinária.

Pelo contrário.

Elas permitem fazer uma pergunta mais interessante:

o que fazemos com o lugar de onde partimos?

Sophia poderia ter permanecido protegida dentro do seu mundo.

Escolheu participar.

Pôs o nome em manifestos.

Apoiou opositores.

Ajudou presos políticos.

Abriu espaços de cultura à oposição democrática.

E, depois da Revolução, participou na construção constitucional.

Privilégio e consciência não são incompatíveis.

O que importa é aquilo que fazemos com ambos.

Também foi uma mulher num mundo literário de homens

Sophia construiu a sua carreira num século em que o cânone literário português continuava fortemente masculino.

Não precisou de escrever “como mulher” segundo uma definição que outros estabelecessem.

Nem de transformar a sua condição feminina no único assunto da sua obra.

Foi simplesmente reconhecida como aquilo que era:

uma das grandes escritoras portuguesas.

Em 1999 aconteceu um marco simbólico.

Sophia tornou-se a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões, a mais importante distinção literária da língua portuguesa.

Tinha 79 anos.

O prémio reconhecia uma obra construída durante mais de meio século.

Mas também dizia alguma coisa sobre o próprio espaço literário.

Uma mulher ocupava, sem nota de rodapé, o centro da literatura de língua portuguesa.

O reconhecimento

Ao longo da vida, Sophia recebeu algumas das mais importantes distinções literárias portuguesas e internacionais.

Mas os prémios são apenas uma maneira de medir uma obra.

Há outra.

Quantas gerações continuam a lê-la?

Quantas crianças entram na literatura através dos seus livros?

Quantos versos permanecem na memória coletiva?

Quantas palavras suas continuam a aparecer quando Portugal precisa de falar de liberdade, de mar, de justiça ou de abril?

Essa talvez seja uma medida mais difícil.

E mais interessante.

2004

Sophia de Mello Breyner Andresen morreu em Lisboa, a 2 de julho de 2004.

Tinha 84 anos.

Dez anos depois, em 2014, recebeu honras de Panteão Nacional.

Mas, novamente, talvez o lugar onde uma escritora permanece não seja um túmulo.

São os livros.

As bibliotecas.

As escolas.

As casas.

As frases que alguém sublinha.

Os poemas que uma criança aprende de cor antes de compreender completamente aquilo que significam.

Tal como Sophia, ainda criança, aprendera A Nau Catrineta.

Há qualquer coisa de circular nisso.

Porque continuamos a ler Sophia?

Porque o mundo sobre o qual escreveu mudou.

E, simultaneamente, algumas das suas perguntas não mudaram nada.

O que é a liberdade?

O que significa viver justamente?

Como reconhecemos a beleza sem ficarmos indiferentes à injustiça?

Como permanecemos inteiros num mundo que tantas vezes nos fragmenta?

Que responsabilidade temos perante aquilo que vemos?

E como encontramos palavras suficientemente precisas para dizer a verdade?

Sophia nunca transformou estas perguntas num manual.

Fez algo mais difícil.

Transformou-as em literatura.

Porque é uma Mulher Incrível?

Não porque tenha sido perfeita.

Não porque todas as suas escolhas devam tornar-se exemplo.

Não porque uma escritora tenha de ser também resistente, deputada ou figura pública para que a sua obra importe.

Sophia de Mello Breyner Andresen merece ser conhecida porque construiu uma das obras fundamentais da literatura portuguesa e recusou separar completamente a procura da beleza da procura da justiça.

Escreveu para adultos.

Escreveu para crianças.

Traduziu.

Interveio.

Resistiu a uma ditadura.

Participou na construção da democracia.

Presidiu à comissão que redigiu o preâmbulo da Constituição portuguesa.

E tornou-se a primeira mulher portuguesa distinguida com o Prémio Camões.

Mas talvez o mais extraordinário seja mais simples.

Sophia passou a vida a procurar palavras capazes de não diminuir aquilo que via.

O mar.

Uma árvore.

Uma casa.

Uma criança.

A injustiça.

A liberdade.

O país.

Talvez seja por isso que ainda a lemos.

Porque há palavras que descrevem o mundo.

E há palavras que nos obrigam a olhá-lo melhor.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004)
Poeta, escritora, tradutora e deputada à Assembleia Constituinte.

Mulheres Incríveis
Histórias de mulheres que vale a pena conhecer.

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