Rosa Mota: a mulher que correu quando disseram que as mulheres não deviam correr tão longe

A primeira maratona que Rosa Mota correu foi também a primeira maratona feminina da história dos Campeonatos da Europa. Ganhou-a. Dois anos depois, quando os Jogos Olímpicos finalmente incluíram uma maratona para mulheres, conquistou o bronze. Depois foi campeã da Europa outra vez. Campeã do mundo. Campeã da Europa novamente. E, em Seul, em 1988, tornou-se a primeira mulher portuguesa campeã olímpica. Durante uma década, Rosa Mota não participou simplesmente na transformação da maratona feminina. Correu no centro dela.

42 quilómetros e 195 metros.

Hoje ninguém estranha ver uma mulher numa linha de partida de uma maratona.

Milhares fazem-no todos os fins de semana.

Profissionais.

Amadoras.

Jovens.

Mulheres de 40, 50, 60 ou 70 anos.

Correm em Lisboa.

Londres.

Boston.

Tóquio.

Chicago.

Berlim.

Nova Iorque.

Parece normal.

Mas durante grande parte da história moderna do atletismo, não foi.

Durante décadas, existiu resistência à participação das mulheres nas provas de longa distância.

Considerava-se que o esforço era excessivo.

Que os seus corpos não estavam preparados.

Que determinadas distâncias simplesmente não eram apropriadas para elas.

Nos Jogos Olímpicos, os homens corriam a maratona desde 1896.

As mulheres tiveram de esperar até 1984.

Quase noventa anos.

Quando finalmente lhes deram 42,195 quilómetros, uma portuguesa estava pronta.

Chamava-se Rosa Mota.

A menina da Foz

Rosa Maria Correia dos Santos Mota nasceu no Porto, a 29 de junho de 1958.

Cresceu na Foz do Douro.

Não havia ainda qualquer indicação de que aquela menina se tornaria uma das maiores atletas portuguesas de todos os tempos.

Gostava de correr.

Começou a participar em provas.

Experimentou diferentes distâncias.

E, em 1980, conheceu uma das pessoas fundamentais da sua carreira:

José Pedrosa.

Tornou-se seu treinador.

E permaneceria ao seu lado durante toda a carreira de alta competição.

Esta relação é importante.

Porque existe uma tendência para contar o desporto como uma história exclusivamente individual.

O atleta vence.

O atleta perde.

O atleta sobe ao pódio.

Mas nenhuma carreira desta dimensão é construída sozinha.

Treino.

Planeamento.

Estratégia.

Recuperação.

Confiança.

Conhecimento do corpo.

Decisões.

Rosa corria.

Pedrosa treinava.

E os dois construíram uma das carreiras mais extraordinárias do atletismo português.

1982: queres experimentar uma maratona?

Rosa ainda não era maratonista.

Competia em distâncias mais curtas.

Mas surgiu uma oportunidade histórica.

Os Campeonatos da Europa de Atletismo de 1982, em Atenas, incluiriam pela primeira vez uma maratona feminina.

Até então, nunca uma mulher tinha podido disputar aquela distância num Campeonato da Europa.

Rosa decidiu participar.

Seria também a primeira maratona da sua vida.

Não era apontada como uma das grandes favoritas.

Tinha 24 anos.

Nunca tinha corrido competitivamente 42,195 quilómetros.

Partiu.

E ganhou.

Primeira maratona.

Primeira vitória.

Campeã da Europa.

Há estreias que servem para aprender.

A de Rosa serviu para mudar de carreira.

Em Atenas, percebeu-se que Portugal tinha encontrado uma maratonista de dimensão internacional.

E aconteceu precisamente no momento em que o atletismo mundial começava finalmente a reconhecer a maratona feminina.

Rosa não chegou depois da história estar feita.

Chegou quando a história estava a começar.

Porque é que as mulheres não corriam a maratona nos Jogos Olímpicos?

A pergunta parece hoje absurda.

Mas vale a pena fazê-la.

Durante décadas, dirigentes, médicos e organizações desportivas argumentaram que as mulheres não deveriam participar em provas tão longas.

Existiam ideias sobre fragilidade física feminina.

Sobre reprodução.

Sobre aquilo que seria um esforço “adequado” ao corpo de uma mulher.

A resistência não desapareceu porque alguém escreveu um relatório e toda a gente concordou.

Desapareceu também porque mulheres correram.

E demonstraram, repetidamente, que conseguiam fazê-lo.

Quando Rosa começou a competir internacionalmente, estava precisamente a desaparecer uma das últimas grandes barreiras do atletismo feminino.

Los Angeles, 1984

Finalmente aconteceu.

Nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, realizou-se a primeira maratona feminina da história olímpica.

Rosa estava lá.

Joan Benoit venceu.

Grete Waitz ficou em segundo lugar.

E Rosa Mota chegou em terceiro.

Bronze olímpico.

Foi a primeira mulher portuguesa a conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos.

Outra primeira vez.

Mas talvez a parte mais extraordinária não seja o pioneirismo.

É perceber que Rosa pertencia imediatamente à elite mundial de uma modalidade que estava a nascer no programa olímpico feminino.

Não estava apenas autorizada a participar.

Estava entre as melhores.

Chicago, 1985

No ano seguinte, Rosa correu a Maratona de Chicago.

Terminou os 42,195 quilómetros em:

2 horas, 23 minutos e 29 segundos.

Foi o melhor tempo da sua carreira.

Quarenta anos depois, a marca continua impressionante.

Uma maratona não é apenas correr durante muito tempo.

É administrar esforço.

Energia.

Ritmo.

Temperatura.

Hidratação.

Dor.

Distância.

Uma decisão demasiado agressiva no quilómetro 10 pode ser paga no quilómetro 35.

Uma hesitação demasiado grande pode entregar uma corrida a outra atleta.

O corpo precisa de correr.

A cabeça precisa de calcular.

E Rosa tornou-se excecional precisamente nisso.

Ela sabia correr uma maratona

Talvez esta frase pareça demasiado simples.

Não é.

Rosa não era apenas rápida.

Era uma extraordinária competidora.

Sabia ler corridas.

Esperar.

Atacar.

Gerir adversárias.

Gerir o próprio corpo.

Perceber quando acelerar.

Perceber quando não acelerar.

Uma maratona de elite é também estratégia.

E a regularidade dos resultados de Rosa mostra até que ponto dominava a distância.

Entre 1982 e 1992, disputou 21 maratonas.

Venceu 14.

Duas em cada três.

Durante uma década.

Contra algumas das melhores corredoras do mundo.

1986: outra vez campeã da Europa

Quatro anos depois de Atenas, Rosa chegou aos Campeonatos da Europa de Estugarda como uma atleta completamente diferente.

Já não era a estreante desconhecida.

Era medalhada olímpica.

Era uma das referências internacionais da maratona.

E voltou a ganhar.

Campeã da Europa pela segunda vez.

A primeira vitória podia ter sido uma surpresa.

A segunda já não.

Rosa estava a construir domínio.

1987: o mundo

No ano seguinte chegaram os Campeonatos do Mundo de Atletismo, em Roma.

Rosa voltou a correr a maratona.

E voltou a ganhar.

Campeã do Mundo.

Agora o currículo tinha:

campeã europeia;

medalhada olímpica;

campeã europeia novamente;

campeã mundial.

Faltava uma coisa.

Seul

23 de setembro de 1988.

Jogos Olímpicos de Seul.

Rosa tinha 30 anos.

Desta vez não chegava como surpresa.

Chegava como uma das mulheres que toda a gente queria vencer.

Ser favorita muda uma corrida.

Quando ninguém espera que ganhemos, podemos surpreender.

Quando todos esperam que ganhemos, carregamos essa expectativa durante 42 quilómetros.

Rosa correu.

Esperou.

O grupo foi reduzindo.

E aproximou-se o momento decisivo.

Quilómetro 38

Faltavam pouco mais de quatro quilómetros.

Rosa ainda seguia acompanhada.

José Pedrosa tinha combinado uma indicação para aquele momento.

Se chegasse ao quilómetro 38 sem estar isolada, seria altura de decidir a corrida.

O treinador gritou:

“É agora ou nunca.”

Rosa atacou.

E foi-se embora.

Quatro quilómetros

Quando pensamos numa maratona, quatro quilómetros parecem pouco.

Depois de 38, não são.

As pernas já carregam quase duas horas e meia de esforço.

O organismo está perto dos seus limites.

Qualquer mudança de ritmo custa.

Mas era ali que Rosa tinha de decidir.

Aumentou a velocidade.

Abriu distância.

Entrou sozinha no Estádio Olímpico.

E cruzou a meta em:

2 horas, 25 minutos e 40 segundos.

Campeã olímpica.

A primeira portuguesa campeã olímpica

Portugal já tinha um campeão olímpico.

Carlos Lopes vencera precisamente a maratona masculina em Los Angeles, quatro anos antes.

Agora tinha a primeira mulher portuguesa campeã olímpica.

Rosa Mota.

Não foi apenas a primeira medalha de ouro olímpica conquistada por uma portuguesa.

Foi também apenas o segundo ouro olímpico da história de Portugal naquele momento.

E aconteceu numa das provas mais exigentes do atletismo.

A maratona.

A distância que, poucas décadas antes, ainda havia quem considerasse excessiva para mulheres.

Mas Seul não foi o fim

Seria fácil terminar aqui.

Ouro olímpico.

Bandeira.

Pódio.

Hino.

Créditos finais.

Mas Rosa continuou.

E isso importa porque uma grande car

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