Paula Rego: a mulher que mudou a história dentro do quadro
Meninas que não parecem frágeis. Mulheres que ocupam espaço. Corpos que não pedem para ser bonitos. Famílias onde amor e poder vivem demasiado perto um do outro. Paula Rego passou uma vida inteira a pintar aquilo que acontece quando deixamos de olhar para as histórias do lugar habitual.
Há qualquer coisa inquietante num quadro de Paula Rego.
Às vezes reconhecemos a história.
Uma menina.
Uma família.
Uma mulher.
Um cão.
Uma personagem saída de um conto.
Um quarto.
Uma saia.
Uma cadeira.
Mas alguma coisa está errada.
Ou talvez esteja finalmente certa.
A menina não parece indefesa.
A mulher não está ali para ser contemplada.
O corpo não foi colocado no quadro para agradar.
Quem parecia vítima pode estar a mandar.
Quem julgávamos poderoso talvez não controle coisa nenhuma.
E aquilo que conhecíamos desde a infância deixa subitamente de significar o que pensávamos.
Paula Rego fazia isso.
Contava histórias.
Só que mudava as regras enquanto as contava.
Uma menina num país onde “os homens mandavam”
Maria Paula Figueiroa Rego nasceu em Lisboa, a 26 de janeiro de 1935.
Portugal vivia sob o Estado Novo.
Era um país autoritário, conservador, profundamente condicionado por ideias rígidas sobre família, sexualidade e sobre aquilo que homens e mulheres deveriam ser.
Paula cresceu nesse mundo.
Mas cresceu também numa família que lhe mostrou outras possibilidades.
O pai era engenheiro, republicano e antifascista.
E foi ele quem tomou uma decisão determinante.
Aos 16 anos, Paula foi estudar para Inglaterra.
A explicação que lhe atribuiu ficaria ligada à sua biografia:
Portugal não era terra para mulheres.
Pode parecer uma frase brutal.
Talvez porque descrevesse brutalmente uma realidade.
Em 1952, Paula Rego deixou Portugal.
E entrou na Slade School of Fine Art, em Londres.
Uma mulher entre artistas
A Slade era uma das escolas de arte mais prestigiadas do Reino Unido.
Paula estudou ali entre 1952 e 1956.
Foi também aí que conheceu Victor Willing, pintor britânico.
Apaixonaram-se.
A relação seria longa, intensa e complexa.
Casaram em 1959 e tiveram três filhos.
Durante muitos anos, as vidas artística, familiar e económica dos dois estiveram profundamente ligadas.
Mas existe uma coisa que importa deixar clara desde o início:
Paula Rego não foi “a mulher de um pintor”.
Era pintora.
E construir essa identidade profissional numa relação entre dois artistas nem sempre foi simples.
A própria obra acabaria por transformar casamento, desejo, fidelidade, ciúme, dependência, doença, cuidado e poder em matéria artística.
Porque Paula fazia frequentemente isso.
Aquilo que a vida lhe dava não entrava necessariamente nos quadros como autobiografia.
Entrava transformado em história.
Portugal continuava dentro dela
Paula viveu entre Portugal e Inglaterra durante muitos anos.
Entre 1957 e 1962, a família viveu na Ericeira.
Mais tarde dividiu-se entre os dois países.
Só em 1976 se instalaria definitivamente em Londres.
Mas sair de Portugal nunca significou retirar Portugal da pintura.
Pelo contrário.
As histórias portuguesas viajaram com ela.
Contos populares.
Religião.
Ditadura.
Família.
Autoridade.
Sexualidade reprimida.
Mulheres.
Medos.
Culpa.
Obediência.
Paula Rego transformaria tudo isso numa linguagem visual profundamente própria.
As histórias que ouvimos quando somos crianças nunca são inocentes
Paula gostava de histórias.
Desde pequena.
Contos populares.
Contos de fadas.
Histórias religiosas.
Literatura.
Teatro.
Cinema.
As gravuras de Gustave Doré.
Mais tarde encontraria matéria em autores tão diferentes como Charlotte Brontë, Eça de Queirós ou Jean Genet.
Mas não ilustrava simplesmente uma história.
Interrogava-a.
Quem tem poder aqui?
Quem está a obedecer?
Quem está a mentir?
O que acontece quando a menina deixa de ser inocente?
O que acontece se a mulher recusar o papel que lhe deram?
E se o monstro não for quem pensávamos?
Os contos tradicionais ocuparam um lugar importante no seu percurso artístico, incluindo séries realizadas a partir de histórias populares portuguesas e europeias.
Talvez Paula tenha percebido uma coisa muito cedo:
as histórias que contamos às crianças também ensinam quem pode mandar, quem deve obedecer, quem é salvo e quem precisa de ser salvo.
E isso podia ser reescrito.
Pintar aquilo que não se dizia
Paula começou a expor numa altura em que Portugal continuava sob ditadura.
E a sua obra não era neutra.
Uma das peças mais conhecidas do início da carreira, Salazar a Vomitar a Pátria, de 1960, dispensa grandes subtilezas no título.
A crítica ao autoritarismo político atravessou parte do seu trabalho inicial.
Mas o poder que interessava a Paula não existia apenas nos governos.
Estava dentro de casa.
Na família.
No casamento.
Na sexualidade.
Entre pais e filhos.
Entre homens e mulheres.
Entre quem cuida e quem depende.
Entre quem aparentemente manda e quem encontra outras maneiras de mandar.
A própria Paula resumiria os seus temas de maneira extraordinariamente direta: poder, obediência, subversão e desigualdade entre os sexos.
Não precisava de procurar muito longe.
O poder estava em toda a parte.
E as mulheres começaram a ocupar o quadro
Olhemos para muitas das mulheres de Paula Rego.
Não estão ali para serem bonitas.
Isso parece uma observação banal.
Não é.
Durante séculos, uma parte considerável da história da arte ocidental representou o corpo feminino através do olhar masculino.
Mulheres para serem observadas.
Idealizadas.
Desejadas.
Santificadas.
Erotizadas.
Paula fez outra coisa.
As mulheres dela têm peso.
Pernas.
Braços.
Músculos.
Posturas desconfortáveis.
Raiva.
Desejo.
Cansaço.
Segredos.
Podem estar agachadas.
Sentadas no chão.
De pernas abertas.
De costas.
A cuidar.
À espera.
A desafiar.
Não precisam de seduzir quem olha.
Existem antes de serem vistas.
Isso altera tudo.
Mulher-cão
Em 1994 apareceu uma das séries mais reconhecíveis da sua carreira: Dog Women, as Mulheres-Cão.
Mulheres colocadas em posições físicas associadas a animais.
Agachadas.
Tensas.
A rosnar.
A dormir.
A esticar o corpo.
Podiam parecer submissas.
Ou ferozes.
Humanas.
Animais.
Vulneráveis.
Poderosas.
Tudo ao mesmo tempo.
Paula recusava uma ideia muito confortável da feminilidade.
As mulheres não precisavam de estar compostas.
Nem ser delicadas.
Nem sequer ser agradáveis.
Um corpo feminino podia ocupar espaço sem pedir desculpa.
E podia fazê-lo sem existir para o desejo de quem estava a olhar.
Depois veio o aborto
Em 1998, Portugal realizou o primeiro referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez.
A proposta não passou.
Paula Rego respondeu da maneira que conhecia melhor.
Trabalhando.
Criou a série Abortion.
Mulheres e raparigas aparecem sozinhas.
Sentadas.
Agachadas.
Deitadas.
Vestidas.
Sem espetáculo.
Sem sangue usado para provocar.
Sem transformar o corpo feminino numa abstração política.
A Gulbenkian confirma que a série nasceu da experiência da própria artista e da sua reação ao resultado daquele referendo.
E há uma razão para estas imagens continuarem tão poderosas.
Paula retirou a discussão do território abstrato.
Não pintou “o aborto”.
Pintou mulheres.
Aquilo que acontece quando uma lei encontra um corpo
Uma discussão política pode usar palavras como legislação, moral, crime, escolha ou princípio.
Paula mostrou outra dimensão.
Um corpo.
Uma rapariga.
Uma mulher.
Um quarto.
Solidão.
Aquilo que acontece quando uma decisão coletiva entra na vida privada de uma pessoa.
As imagens circularam em Portugal.
Anos depois, a artista afirmou acreditar que tinham contribuído para o debate que antecedeu o segundo referendo, em 2007.
Não precisamos de medir uma obra de arte pelo número de votos que eventualmente mudou.
O mais importante está noutro lugar.
Paula mostrou aquilo que a linguagem política conseguia esconder.
A lei também acontece no corpo de alguém.
A modelo chamava-se Lila
Há outra mulher que precisamos de conhecer quando falamos da obra madura de Paula Rego.
Lila Nunes.
Trabalhou inicialmente como enfermeira de Victor Willing durante a doença dele e tornou-se depois uma das principais modelos de Paula.
O seu corpo aparece repetidamente nas obras.
Mas “modelo” talvez seja uma palavra demasiado pequena para explicar o processo.
Paula construía cenas.
Criava bonecos.
Vestia figuras.
Posicionava corpos.
Fotografava.
Desenhava.
Transformava.
Lila ajudava-a a encontrar fisicamente posturas que depois entravam nas imagens.
A pintura começava também no corpo.
E isso sente-se.
As mulheres de Paula não parecem inventadas a partir de uma ideia genérica de “mulher”.
Parecem ter gravidade.
Porque têm.
Victor adoeceu
Em 1966, Victor Willing foi diagnosticado com esclerose múltipla.
Paula tornou-se progressivamente cuidadora do marido enquanto continuava a trabalhar e a criar os filhos.
Victor morreu em 1988.
Tinha 60 anos.
Nesse mesmo ano, a Fundação Calouste Gulbenkian realizou a primeira grande exposição antológica da obra de Paula Rego, reunindo cerca de 35 anos de trabalho.
Vida e obra voltavam a cruzar-se.
Mas é importante não transformar tudo aquilo que Paula pintou numa explicação psicológica daquilo que viveu.
Arte não funciona assim.
Experiência, imaginação, literatura, memória e invenção misturam-se.
O quadro não é um diário.
É outra coisa.
Aos 55 anos aconteceu algo extraordinário
Em 1990, a National Gallery de Londres criou um programa de artista associada.
E escolheu Paula Rego.
Foi a primeira Associate Artist da National Gallery.
Tinha 55 anos.
Vale a pena pensar nesta idade.
Vivemos numa cultura obcecada com descobertas precoces.
Listas de jovens talentos.
Carreiras que parecem ter de estar decididas aos 30.
Paula já trabalhava há décadas.
Mas uma das fases de maior reconhecimento internacional da sua carreira estava ainda a começar.
Depois dos 50.
Seguiram-se exposições, prémios, encomendas, museus e um reconhecimento internacional cada vez maior.
Uma carreira artística não precisa de obedecer ao relógio que inventámos para ela.
O pastel tornou-se uma arma extraordinária
Na década de 1990, Paula começou a trabalhar intensamente com pastel.
Pode parecer um material delicado.
Nas mãos dela não era.
A cor ganhou densidade.
Os corpos ganharam volume.
As figuras quase saltavam do papel.
Paula conseguia criar pele, tecido, sombra, músculos e tensão com uma materialidade extraordinária.
E continuava a contar histórias.
Só que as histórias se tornavam cada vez mais físicas.
Quase conseguimos sentir o peso dos corpos.
Não fazia mulheres fortes
Talvez esta seja uma distinção importante.
É frequente descrevermos as figuras femininas de Paula Rego como “mulheres fortes”.
Mas isso reduz aquilo que ela fez.
As mulheres dela não precisam de ser fortes.
Podem estar assustadas.
Humilhadas.
Doentes.
Desejosas.
Dependentes.
Furiosas.
Cruéis.
Submissas.
Dominadoras.
Podem ser tudo isso dentro da mesma história.
Paula não substituiu o estereótipo da mulher frágil pelo estereótipo da mulher invencível.
Fez algo melhor.
Devolveu-lhes complexidade.
Também as mães podiam ser assustadoras
Maternidade é outra palavra que a obra de Paula não deixa intacta.
A cultura construiu durante séculos uma imagem quase sagrada da mãe.
Cuidadora.
Generosa.
Protetora.
Abnegada.
Paula conhecia essa imagem.
E conhecia o resto.
A exaustão.
A dependência.
O poder.
A culpa.
A raiva.
A ambivalência.
O corpo.
Não precisava de negar o amor materno para mostrar que a maternidade podia conter emoções contraditórias.
Mais uma vez, recusava simplificar uma mulher para tornar a história confortável.
E não poupava os homens
Mas também seria redutor dizer que Paula pintava mulheres boas contra homens maus.
Não era isso.
O poder circulava.
As mulheres também podiam dominar.
Manipular.
Ferir.
Controlar.
A própria artista insistia nessa complexidade: os homens mandavam frequentemente nas mulheres, dizia, mas as mulheres também podiam mandar — de outra maneira.
Essa frase ajuda a compreender toda uma obra.
Paula não procurava santos.
Procurava relações.
E relações humanas raramente são moralmente arrumadas.
A menina que ouvia histórias construiu a Casa das Histórias
Em 2009 abriu em Cascais a Casa das Histórias Paula Rego, desenhada pelo arquiteto Eduardo Souto de Moura.
O nome dificilmente poderia ser mais adequado.
Casa.
Histórias.
Duas palavras que atravessaram a sua vida inteira.
Não “Museu Paula Rego”.
Casa das Histórias.
Porque talvez seja exatamente isso que Paula construiu.
Uma casa onde Capuchinhos Vermelhos, mulheres-cão, meninas, mães, amantes, criadas, bonecos, animais, personagens literárias e mulheres anónimas podiam continuar a contar versões diferentes das histórias que julgávamos conhecer.
O reconhecimento chegou — e continuou a crescer
Paula Rego recebeu importantes distinções portuguesas e britânicas.
Foi Grande-Oficial e, posteriormente, Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.
Em 2010 foi nomeada Dame Commander of the Order of the British Empire.
A sua obra entrou em grandes coleções internacionais.
E o reconhecimento continuou a crescer nas últimas décadas da sua vida.
Em 2021, aos 86 anos, a Tate Britain apresentou a maior retrospetiva da sua obra até então, reunindo cerca de 100 trabalhos.
Outra vez a idade.
Ainda havia obra para rever.
Ainda havia público para descobrir.
Ainda havia histórias para reler.
2022
Paula Rego morreu em Londres, a 8 de junho de 2022.
Tinha 87 anos.
Morreu num momento de enorme reconhecimento internacional, depois das grandes exposições em Paris, Londres e Haia, com outras mostras ainda em circulação.
Mas talvez a pergunta Feniks não seja simplesmente como terminou a vida.
É outra:
o que ficou diferente porque Paula Rego pintou?
Depois de Paula, algumas histórias já não parecem inocentes
Talvez seja esse o seu legado mais interessante.
Olhar novamente.
Para um conto infantil.
Para uma família.
Para um casamento.
Para uma menina.
Para uma mãe.
Para uma lei.
Para um corpo.
Para uma relação aparentemente normal.
E perguntar:
quem manda aqui?
Quem está a obedecer?
Quem decidiu que isto era normal?
Quem não está a falar?
O que aconteceria se contássemos esta história do ponto de vista da pessoa que sempre ficou no fundo do quadro?
Paula Rego fez essas perguntas durante décadas.
Não através de manifestos.
Através de imagens.
Porque é uma Mulher Incrível?
Não porque tenha sido destemida.
A própria Paula falou muitas vezes dos seus medos.
Não porque tenha sido uma “mulher forte”.
Não precisamos dessa categoria.
Não porque tenha transformado cada sofrimento numa vitória.
E não porque devamos reduzir a sua obra à palavra “feminismo”.
Paula Rego merece ser conhecida porque construiu uma linguagem artística inconfundível para falar de poder, obediência, sexualidade, família, violência e desigualdade.
Porque colocou mulheres no centro das imagens sem exigir que fossem bonitas, exemplares ou heroicas.
Porque mostrou corpos femininos como lugares de experiência e não apenas como objetos de contemplação.
Porque respondeu a uma discussão política sobre aborto fazendo aquilo que sabia fazer: mostrou as mulheres que a abstração política podia esconder.
Porque pegou nas histórias que recebemos em crianças e perguntou quem tinha decidido que aquela era a única maneira de as contar.
E porque nos deixou uma possibilidade particularmente importante:
podemos voltar a uma história antiga e mudar o lugar de onde a vemos.
Quando isso acontece, a história também muda.
Talvez nós mudemos com ela.
Paula Rego (1935–2022)
Pintora e artista visual portuguesa.
Mulheres Incríveis
Histórias de mulheres que vale a pena conhecer.

Deixe um comentário