Maria Lamas: a mulher que foi ver as mulheres do seu país

Em 1948, Maria Lamas começou a percorrer Portugal para responder a uma pergunta aparentemente simples: como viviam realmente as mulheres portuguesas? Encontrou camponesas, operárias, pescadoras, mães, trabalhadoras e mulheres pobres. Ouviu-as. Fotografou-as. Escreveu sobre elas. O resultado, As Mulheres do Meu País, tornou visível uma realidade que não cabia na imagem feminina promovida pelo Estado Novo. Mas Maria Lamas não foi apenas a autora desse livro extraordinário. Foi jornalista, escritora, dirigente do movimento das mulheres, resistente à ditadura, presa política e exilada. Passou grande parte da vida a fazer uma coisa que continua profundamente atual: recusar a indiferença.

Há uma diferença entre imaginar a vida de alguém e ir vê-la.

Maria Lamas foi ver.

Saiu de Lisboa.

Percorreu cidades.

Aldeias.

Campos.

Regiões costeiras.

Montanhas.

Entrou em casas.

Aproximou-se de locais de trabalho.

Conversou com mulheres.

Observou.

Perguntou.

Fotografou.

Escreveu.

No final da década de 1940, quando o Estado Novo promovia uma representação muito concreta da feminilidade — mãe, esposa, cuidadora, guardiã da família e do lar — Maria encontrou outra realidade.

Mulheres trabalhavam.

Muito.

No campo.

Na indústria.

No comércio.

Na pesca.

Em casa.

Fora dela.

Trabalhavam enquanto cuidavam dos filhos.

Trabalhavam durante a gravidez.

Trabalhavam na pobreza.

Trabalhavam sem que esse trabalho tivesse necessariamente o reconhecimento que merecia.

E Maria fez uma coisa fundamental:

olhou para elas.

Torres Novas, 1893

Maria da Conceição Vassalo e Silva nasceu em Torres Novas, a 6 de outubro de 1893.

Mais tarde tornar-se-ia conhecida pelo nome que atravessaria o jornalismo, a literatura e a história política portuguesa:

Maria Lamas.

Cresceu num ambiente familiar relativamente culto e estudou num colégio religioso.

Casou muito jovem.

Tinha apenas 17 anos quando casou com o oficial do Exército Teófilo José Pignolet Ribeiro da Fonseca.

A vida levou-a para Angola, onde o marido estava colocado.

Teve filhas.

Regressou a Portugal.

O casamento terminou.

Mais tarde voltaria a casar, desta vez com o jornalista Alfredo da Cunha Lamas, de quem conservaria o apelido pelo qual ficaria conhecida.

Mas reduzir a juventude de Maria aos seus casamentos seria perder aquilo que começava a construir:

uma vida profissional própria.

Maria precisava de trabalhar

Escreveu.

Traduziu.

Publicou poesia.

Romances.

Literatura infantil.

Colaborou na imprensa.

O jornalismo tornou-se progressivamente central na sua vida.

Passou por diferentes publicações até entrar, em 1928, no jornal O Século.

Dois anos depois, assumiu a direção de um suplemento chamado:

Modas & Bordados.

O nome pode enganar-nos.

Parece uma revista dedicada apenas a vestidos, costura e vida doméstica.

Nas mãos de Maria Lamas tornou-se muito mais.

O que pode caber numa revista para mulheres?

Esta é uma pergunta interessante.

Moda?

Receitas?

Conselhos domésticos?

Talvez.

Mas por que razão não poderiam também caber:

trabalho?

educação?

literatura?

cultura?

direitos?

problemas sociais?

participação das mulheres na sociedade?

Maria transformou progressivamente Modas & Bordados num espaço de comunicação com um enorme público feminino.

A publicação cresceu.

Ganhou leitoras.

E tornou-se também um lugar onde era possível discutir aquilo que significava ser mulher num país em transformação.

Segundo a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, quando Maria assumiu a direção, o suplemento era deficitário; sob a sua liderança tornou-se rentável.

Isto também importa.

Maria não era apenas uma intelectual com ideias.

Sabia fazer uma publicação funcionar.

1930: mostrar aquilo que as mulheres faziam

Nesse mesmo contexto, Maria organizou em 1930 a exposição Mulheres Portuguesas — Exposição da Obra Feminina, Antiga e Moderna de Caráter Literário, Artístico e Científico.

Outra vez, a mesma preocupação:

mostrar.

Tornar visível.

Provar através da obra.

Mulheres escreviam.

Criavam.

Investigavam.

Produziam.

Pensavam.

A história das mulheres portuguesas não podia ser contada apenas através da domesticidade.

E Maria ainda estava longe de terminar essa demonstração.

Do jornalismo ao movimento das mulheres

Durante a década de 1930, aproximou-se cada vez mais das organizações femininas e das causas políticas.

Participou na Associação Feminina Portuguesa para a Paz.

E envolveu-se profundamente no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.

O Conselho tinha sido fundado em 1914 por Adelaide Cabete.

Mais uma vez, as histórias desta coleção encontram-se.

Adelaide construíra a instituição.

Décadas depois, Maria Lamas assumiria a sua liderança.

Em 1945, tornou-se presidente da direção do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.

Portugal estava ainda sob a ditadura do Estado Novo.

E Maria começava a ocupar uma posição cada vez mais incómoda para o regime.

1947: três mil livros escritos por mulheres

Em janeiro de 1947, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas organizou, sob a presidência de Maria Lamas, uma iniciativa extraordinária:

a Exposição de Livros Escritos por Mulheres.

Realizada na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa, reuniu cerca de três mil livros de aproximadamente quatrocentas autoras, provenientes de trinta países.

Pensemos no gesto.

Uma sala cheia de livros.

Centenas de mulheres.

Dezenas de países.

Uma demonstração física de produção intelectual feminina.

Era impossível entrar naquela exposição e continuar a sustentar seriamente que as mulheres não escreviam, não pensavam ou não produziam cultura.

Os livros estavam ali.

Era possível vê-los.

Outra vez:

tornar visível.

O Estado Novo respondeu

A iniciativa teve grande repercussão.

E não agradou ao regime.

Maria foi pressionada a escolher entre continuar à frente de Modas & Bordados e manter a presidência do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.

Escolheu o Conselho.

Pouco depois, as autoridades encerraram a sede da organização.

Uma associação de mulheres tinha-se tornado suficientemente incómoda para ser silenciada.

Maria perdeu o espaço institucional.

Mas a resposta que encontrou seria ainda mais poderosa.

Se não podia continuar daquela maneira, faria outra coisa.

Iria conhecer diretamente as mulheres do país.

“Quem são as mulheres do meu país?”

A pergunta parece simples.

A resposta não era.

Quem eram as portuguesas?

A dona de casa de Lisboa?

A burguesa?

A professora?

A operária?

A mulher que apanhava algas?

A camponesa?

A pescadora?

A trabalhadora da fábrica?

A mãe de muitos filhos?

A mulher que trabalhava de sol a sol e cujo nome nunca apareceria num jornal?

Maria decidiu procurar respostas fora dos gabinetes.

Entre 1948 e 1950, percorreu Portugal durante cerca de dois anos para realizar aquela que se tornaria a sua obra mais importante:

As Mulheres do Meu País

A obra foi publicada em fascículos e combinou reportagem, observação social, documentação, fotografia e reflexão sobre a condição feminina.

Era um projeto enorme.

E profundamente político, mesmo quando simplesmente mostrava aquilo que estava diante da câmara.

Maria levou uma máquina fotográfica

Esta parte da história é particularmente importante.

Maria não se limitou a escrever.

Fotografou muitas das mulheres que encontrou.

A obra contém centenas de fotografias, várias realizadas pela própria Maria Lamas, além de reproduções de trabalhos de artistas portugueses.

As imagens fazem alguma coisa que as palavras não conseguem fazer sozinhas.

Dão rosto.

Corpo.

Postura.

Roupa.

Ambiente.

Mãos.

Cansaço.

Lugar.

A mulher deixa de ser uma categoria.

Passa a ser uma pessoa diante de nós.

As mulheres trabalhavam

Isto parece uma afirmação absurdamente evidente.

Mas tinha consequências políticas.

O discurso dominante do Estado Novo colocava a mulher sobretudo no espaço doméstico.

A realidade encontrada por Maria era muito mais complexa.

As mulheres trabalhavam na agricultura.

Na pesca.

Na indústria.

Nos serviços.

No artesanato.

Na venda.

No trabalho doméstico.

Na economia familiar.

Em muitas comunidades, o seu trabalho era indispensável à sobrevivência da família.

As Mulheres do Meu País ajudou a desmontar o mito de uma mulher portuguesa exclusivamente confinada ao lar, mostrando a intensidade e diversidade do trabalho feminino.

Maria não precisava de inventar uma tese.

Bastava mostrar o país.

E havia pobreza

Muita.

A obra não é confortável.

Encontramos trabalho pesado.

Habitações precárias.

Falta de educação.

Desigualdades regionais.

Maternidades sucessivas.

Crianças.

Corpos marcados pelo trabalho.

Mulheres cuja existência parecia organizada em função da sobrevivência dos outros.

Maria não procurou apenas as mulheres excecionais.

Fez quase o contrário.

Procurou aquelas que normalmente não chegavam aos livros.

E isso torna As Mulheres do Meu País extraordinariamente moderno.

Quem merece entrar na História?

Durante muito tempo, a História interessou-se sobretudo por determinadas pessoas.

Reis.

Generais.

Governantes.

Escritores.

Grandes proprietários.

Homens com cargos.

Maria olhou para uma mulher anónima a trabalhar num campo e considerou que a vida dela também era conhecimento.

Que o trabalho dela dizia alguma coisa sobre Portugal.

Que as suas condições de vida mereciam documentação.

Que o seu rosto merecia uma fotografia.

Esta mudança de olhar é enorme.

Uma vida não precisa de ser famosa para ser historicamente importante.

Mas Maria não queria apenas documentar

As Mulheres do Meu País não era um levantamento neutro.

Maria queria combater aquilo que identificava como indiferença perante os problemas das mulheres.

O Museu do Aljube assinala precisamente esse propósito da obra: abalar a indiferença com que eram encaradas as condições de vida femininas e contribuir para a sua emancipação.

Ver implicava responsabilidade.

Se agora sabemos como vivem estas mulheres, o que fazemos com esse conhecimento?

Essa pergunta atravessa o livro.

E atravessaria a vida de Maria.

A jornalista tornou-se também resistente

O envolvimento político de Maria intensificou-se.

Participou no Movimento de Unidade Democrática, uma das principais estruturas da oposição ao Estado Novo.

Envolveu-se na candidatura presidencial do general Norton de Matos, em 1949.

Participou em movimentos internacionais pela paz.

O regime começou a tratá-la não apenas como uma feminista incómoda.

Mas como uma oposicionista política.

E chegaram as prisões.

Caxias

Maria Lamas foi detida pela polícia política várias vezes.

O Museu do Aljube documenta três detenções entre 1949 e 1962.

Em julho de 1950 foi novamente presa.

Ficaria detida durante meses.

Na prisão escreveu.

Pensou.

Continuou.

Mas também aqui precisamos de cuidado.

Não precisamos de transformar a prisão numa etapa necessária de uma história heroica.

A repressão política não tornou Maria melhor.

Foi uma violência exercida sobre uma mulher porque o regime considerava a sua atividade política perigosa.

A importância está no que ela defendia.

Não no sofrimento que lhe foi imposto.

Paz também era política

Maria participou ativamente nos movimentos internacionais pela paz.

Viajou.

Participou em congressos.

Estabeleceu contactos internacionais.

Num contexto de Guerra Fria, estas organizações eram também espaços profundamente politizados.

Maria aproximou-se cada vez mais dos movimentos comunistas e antifascistas.

A sua defesa dos direitos das mulheres passou a estar ligada a uma visão mais ampla de transformação social.

Trabalho.

Pobreza.

Paz.

Democracia.

Direitos políticos.

Emancipação feminina.

Para Maria, estas questões não existiam isoladamente.

Em 1962, saiu de Portugal

A vigilância e repressão continuavam.

Em 1962, Maria Lamas partiu para o exílio em Paris.

Tinha 68 anos.

Outra idade em que vale a pena parar.

Não era uma jovem revolucionária a começar a vida.

Era uma mulher com décadas de carreira.

Mãe.

Avó.

Escritora conhecida.

Jornalista.

Antiga diretora de uma publicação de grande circulação.

Podia ter escolhido retirar-se.

Em vez disso, aos 68 anos, começou uma vida no exílio.

Paris

Permaneceu em Paris até 1969.

Durante esses anos continuou politicamente ativa e apoiou portugueses refugiados e opositores da ditadura.

A distância não significou silêncio.

Continuou ligada aos movimentos pela paz e à oposição política.

Regressou definitivamente a Portugal em 1969.

Tinha 75 anos.

Cinco anos depois aconteceria aquilo por que tantas pessoas da sua geração tinham esperado durante décadas.

25 de Abril de 1974

Maria tinha 80 anos quando a ditadura caiu.

É difícil imaginar o que significa viver grande parte de uma vida adulta sob um regime autoritário e assistir finalmente ao seu fim.

Depois da Revolução, Maria continuou politicamente ativa.

Tornou-se presidente honorária do Movimento Democrático de Mulheres e filiou-se no Partido Comunista Português.

Mas a mulher que regressava à democracia trazia consigo mais de meio século de intervenção pública.

Não precisava de começar.

Já lá estava.

Não precisamos de concordar com Maria Lamas em tudo

Isto também faz parte de conhecê-la.

Maria fez escolhas políticas concretas.

Aproximou-se do movimento comunista internacional.

Participou em organizações pela paz inseridas no contexto político da Guerra Fria.

Depois da Revolução filiou-se no PCP.

Podemos estudar essas opções.

Contextualizá-las.

Concordar ou discordar delas.

Mas não precisamos de as esconder para preservar uma imagem consensual.

Maria Lamas não foi uma personagem neutra.

Era uma intelectual politicamente comprometida.

E isso faz parte da sua história.

A mulher antes da categoria

Talvez, no entanto, a parte da obra de Maria que mais atravessa o tempo seja anterior a qualquer filiação partidária.

É o método.

Ir ver.

Não falar da “mulher portuguesa” como se existisse apenas uma.

Ir procurar mulheres.

A mulher do Minho não vivia necessariamente como a mulher do Alentejo.

A operária não vivia como a proprietária.

A pescadora não vivia como a funcionária.

A mulher urbana não vivia como a camponesa.

A pobreza alterava possibilidades.

A geografia alterava possibilidades.

O trabalho alterava possibilidades.

A educação alterava possibilidades.

Maria encontrou diversidade onde os discursos políticos preferiam uma categoria única:

A Mulher.

Ela encontrou mulheres.

No plural.

Talvez esta seja a parte mais moderna de Maria Lamas

Hoje falaríamos de diferentes condições socioeconómicas.

Territórios.

Trabalho pago e não pago.

Desigualdade.

Representação.

Experiência vivida.

Maria não utilizava necessariamente o nosso vocabulário.

Mas percebeu uma coisa essencial:

não podemos compreender a condição das mulheres olhando apenas para as mulheres que têm possibilidade de falar publicamente sobre ela.

Era preciso sair.

Ir ao encontro das outras.

Ouvir.

Observar.

Documentar.

Quem conta as mulheres?

Esta pergunta continua atual.

Quem aparece nos jornais?

Quem é entrevistada?

Que mulheres aparecem nas capas?

Que vidas consideramos interessantes?

Que percursos merecem uma biografia?

Quem fica fora?

Maria Lamas respondeu através do próprio trabalho.

Uma trabalhadora rural anónima podia merecer uma página.

Uma mulher pobre podia merecer uma fotografia.

Uma pescadora podia ajudar-nos a compreender Portugal.

Uma mãe sem poder político podia ter uma vida politicamente relevante.

Não porque fosse extraordinária.

Porque existia.

1983

Maria Lamas morreu em Lisboa, a 6 de dezembro de 1983.

Tinha 90 anos.

A mulher que nascera durante a monarquia tinha atravessado a implantação da República, a Primeira Guerra Mundial, a ditadura militar, o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, décadas de opos

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