Natália Correia: a mulher que não pediu licença para pensar

Poeta, escritora, editora, dramaturga, deputada, intelectual, anfitriã de noites intermináveis e adversária feroz de qualquer pensamento que lhe parecesse demasiado pequeno para a liberdade humana. Natália Correia passou a vida a recusar lugares estreitos. Talvez por isso ainda seja tão difícil colocá-la numa única definição.

Há mulheres que ficam conhecidas por uma obra.

Natália Correia deixou-nos demasiadas coisas para isso.

Poemas.

Romances.

Teatro.

Ensaios.

Antologias.

Intervenções políticas.

Polémicas.

Programas de televisão.

Editoras.

Discursos parlamentares.

Noites de conversa.

Amizades.

Inimizades.

E frases suficientes para alimentar décadas de citações — algumas verdadeiras, outras provavelmente já transformadas pela memória coletiva.

Natália tornou-se personagem.

Esse é precisamente o problema.

Porque, quando uma mulher se transforma numa personagem maior do que a própria vida, corremos o risco de deixar de a conhecer.

Fica a mulher irreverente.

A mulher do cigarro.

A mulher da noite lisboeta.

A mulher que dizia o que queria.

A mulher que respondeu com um poema no Parlamento.

Tudo isso existiu.

Mas Natália Correia foi muito mais interessante.

Pensava.

E pensava sem grande preocupação em tornar o pensamento confortável para quem a ouvia.

Antes de Lisboa, havia uma ilha

Natália de Oliveira Correia nasceu a 13 de setembro de 1923, na Fajã de Baixo, na ilha de São Miguel, nos Açores.

A infância açoriana foi relativamente breve.

O pai emigrou para o Brasil e Natália mudou-se ainda criança para Lisboa com a mãe e a irmã.

Tinha 11 anos.

Mas os Açores não desapareceram.

A insularidade, o imaginário atlântico, o sentido de distância e a dimensão quase mítica da paisagem permaneceriam na sua escrita.

Em Lisboa encontrou outro mundo.

E foi também em Lisboa que começaria a construir aquele que viria a ser um dos percursos intelectuais mais singulares da cultura portuguesa do século XX.

Não foi à universidade

É um detalhe particularmente interessante numa mulher que viria a ocupar um lugar tão relevante na vida intelectual portuguesa.

Natália Correia não teve formação universitária.

A sua educação formal terminou relativamente cedo.

O resto construiu-o através da leitura.

Leu.

Escreveu.

Conversou.

Procurou.

Discutiu.

Criou relações com escritores, artistas e intelectuais.

Fez da curiosidade uma forma de educação permanente.

Talvez isto ajude a explicar alguma coisa sobre Natália.

Não pertencia inteiramente a uma disciplina.

Nem parecia querer pertencer.

Literatura, política, história, erotismo, religião, mito, identidade portuguesa, condição feminina, cultura europeia — tudo podia entrar na conversa.

E quase tudo entrou nos livros.

Primeiro, a poesia

Natália começou a publicar ainda jovem.

A poesia tornar-se-ia um dos centros da sua obra, mas nunca seria o único.

Escreveu romances.

Contos.

Teatro.

Ensaio.

Crónica.

Fez antologias.

Traduziu.

Editou.

Participou ativamente na imprensa e na vida cultural.

A sua obra atravessou géneros com a mesma dificuldade com que a própria Natália atravessava categorias.

Surrealista?

Romântica?

Feminista?

Antifascista?

Monárquica?

Republicana?

Social-democrata?

Libertária?

Conservadora em algumas matérias?

Revolucionária noutras?

Há qualquer coisa de quase divertido na tentativa de escolher uma única caixa.

Natália provavelmente teria saído dela antes de terminarmos a etiqueta.

Liberdade não significava concordar com Natália

Este talvez seja um ponto essencial.

É fácil transformar uma figura como Natália Correia numa espécie de santa padroeira contemporânea da liberdade.

Seria uma simplificação.

Natália defendia ferozmente a liberdade.

Mas as suas posições nem sempre coincidem com aquilo que hoje esperaríamos de uma intelectual progressista.

Nem sequer coincidiam sempre com as pessoas e movimentos com quem partilhava outras causas.

Discordava.

Mudava de posição.

Provocava.

Recusava alinhamentos automáticos.

E podia ser profundamente incómoda.

Talvez isso nos obrigue a pensar no que queremos dizer quando celebramos uma mulher “livre”.

Liberdade não significa ter sempre as opiniões que nós teríamos.

Significa também reconhecer a alguém o direito de pensar por si própria.

Mesmo quando discordamos.

Escrever durante uma ditadura

Natália viveu grande parte da sua vida adulta sob o Estado Novo.

E não ficou silenciosa.

Participou em movimentos de oposição ao regime.

A sua atividade literária e editorial colocou-a repetidamente em confronto com a censura.

Foi processada.

Condenada.

Teve livros apreendidos.

E participou numa das histórias editoriais mais importantes — e mais polémicas — da literatura portuguesa do século XX.

Quando publicar também era uma decisão política

Em 1965, Natália Correia organizou a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica.

Num país governado por uma ditadura conservadora, católica e censória, não era uma publicação neutra.

A obra foi apreendida.

Natália foi julgada e condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, por abuso de liberdade de imprensa. O processo prolongou-se até 1970.

Vale a pena parar aqui.

Hoje podemos entrar numa livraria, escolher um livro, publicá-lo, criticá-lo ou ignorá-lo.

Durante uma ditadura, escolher aquilo que se publica pode tornar-se uma forma concreta de confronto político.

Natália sabia-o.

E publicou.

As Novas Cartas Portuguesas

Poucos anos depois, outra obra colocaria a liberdade literária e a condição das mulheres no centro de uma enorme controvérsia.

Em 1972, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa publicaram Novas Cartas Portuguesas.

As “Três Marias”.

O livro foi apreendido pela censura.

As autoras foram processadas.

E Natália Correia, enquanto responsável editorial na Estúdios Cor, esteve ligada à publicação da obra.

A história tornou-se internacional.

Movimentos feministas de vários países mobilizaram-se em solidariedade com as autoras.

Depois do 25 de Abril, o processo seria encerrado.

Mais uma vez, literatura, sexualidade, mulheres, poder e liberdade encontravam-se.

Não apenas nos livros de Natália.

Na própria vida cultural que ajudava a construir.

E depois havia o Botequim

Lisboa teve muitos cafés.

Mas poucos se tornaram tão associados a uma pessoa como o Botequim ficou associado a Natália Correia.

Abriu em 1971, na Graça.

Era bar.

Era lugar de encontro.

Era sala de conversa.

Era quase uma extensão da própria Natália.

Por ali passaram escritores, artistas, políticos, jornalistas, músicos e pessoas que simplesmente queriam estar onde alguma coisa estava a acontecer.

Depois da Revolução, o Botequim tornou-se um dos lugares emblemáticos da vida cultural e política lisboeta.

Natália recebia.

Conversava.

Discutia.

Provocava.

A noite podia prolongar-se.

Talvez o mais interessante seja isto:

Natália não produzia apenas cultura através dos livros. Criava lugares onde a cultura podia acontecer.

Isso também é uma forma de obra.

Uma mulher no centro da conversa

Durante muito tempo, os grandes espaços de sociabilidade intelectual foram essencialmente masculinos.

Cafés.

Tertúlias.

Redações.

Editoras.

Academias.

Partidos.

Parlamentos.

Natália não ficou à porta.

Também não entrou discretamente.

Ocupou o centro da conversa.

Não como musa.

Não como mulher de um escritor.

Não como presença decorativa.

Como interlocutora.

Isso pode parecer banal hoje.

Não era.

E talvez ainda não seja completamente.

Uma mulher que fala muito continua a ser frequentemente julgada de maneira diferente de um homem que faz exatamente o mesmo.

Natália falou.

Muito.

O 25 de Abril

Quando a Revolução chegou, Natália tinha 50 anos.

Passara décadas a viver e a escrever sob censura.

A democracia abriu um novo espaço.

Mas Natália não se transformou numa observadora satisfeita apenas porque a ditadura tinha terminado.

Continuou a intervir.

Continuou a criticar.

Continuou a escrever.

E acabaria por entrar formalmente na política.

Natália deputada

Em 1980, Natália Correia foi eleita deputada à Assembleia da República nas listas do Partido Popular Democrático/Partido Social Democrata (PPD/PSD).

Foi reeleita em 1983.

No Parlamento interveio particularmente em matérias culturais, património, liberdade e direitos.

Mas a disciplina partidária nunca pareceu ser o lugar mais natural para alguém com a personalidade política de Natália.

Acabaria por afastar-se do PSD.

Mais tarde apoiaria a candidatura presidencial de Mário Soares, em 1986.

Outra vez:

as etiquetas duravam menos do que ela.

O poema que entrou para a história do Parlamento

E então chegamos ao episódio que quase toda a gente conhece.

Assembleia da República.

Estava em discussão a alteração da legislação relativa à interrupção voluntária da gravidez.

O deputado João Morgado, do CDS, argumentou que o ato sexual tinha como finalidade a procriação.

Natália ouviu.

E respondeu.

Não com um discurso convencional.

Com um poema satírico.

O poema começava:

“Já que o coito diz Morgado
tem como fim cristalino
preciso e imaculado
fazer menina ou menino…”

O Parlamento riu.

O episódio entrou para a história política portuguesa.

Décadas depois continua a circular nas redes sociais.

É fácil perceber porquê.

É inteligente.

Rápido.

Engraçado.

Teatral.

E absolutamente Natália.

Mas existe um risco.

Natália Correia não cabe num poema sobre sexo

Aquela intervenção tornou-se tão fa

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *