Adelaide Cabete: a mulher que começou a escola aos 22 e nunca mais parou

Aprendeu a ler praticamente sozinha. Fez o exame de instrução primária aos 22 anos. Aos 27 terminou o liceu. Aos 33 era médica. Mas Adelaide Cabete não estudou apenas para mudar a sua própria vida. Passou as décadas seguintes a perguntar por que razão tantas outras mulheres não tinham as mesmas possibilidades — e a trabalhar para que as tivessem.

Há biografias que nos obrigam a perceber a distância entre dois mundos.

No mundo em que Adelaide Cabete nasceu, uma rapariga pobre podia começar a trabalhar muito cedo.

Podia crescer sem frequentar regularmente a escola.

Podia casar.

Ter filhos.

Cuidar da casa.

Trabalhar.

E chegar ao fim da vida sem nunca ter tido verdadeira autonomia económica, educativa ou política.

Adelaide conhecia esse mundo.

Nasceu dentro dele.

E, durante quase sete décadas, ajudou a questioná-lo.

Elvas, 1867

Adelaide de Jesus Damas Brazão nasceu em Elvas, a 25 de janeiro de 1867.

Era de origem humilde.

Perdeu o pai muito cedo e começou a trabalhar ainda criança.

Não teve a infância escolar que hoje consideraríamos normal.

Trabalhou em casas de famílias mais abastadas e foi através dos livros escolares das crianças dessas famílias que começou a aprender por si própria.

Ler.

Escrever.

Conhecer.

É tentador transformar este início numa história romântica sobre força de vontade.

Mas isso esconderia a parte mais importante.

Uma criança ter de aprender às escondidas ou pelos livros dos outros não é uma bonita história de superação. É uma história sobre desigualdade.

Adelaide conseguiu ultrapassá-la.

Muitas outras meninas não conseguiram.

Talvez seja precisamente por isso que a educação se tornaria uma das grandes causas da sua vida.

Aos 19 anos, casou

Em 1886, Adelaide casou com Manuel Fernandes Cabete, sargento do Exército.

Este casamento merece atenção porque contraria outra narrativa demasiado fácil.

Nem todos os homens da história das mulheres que conquistaram autonomia foram necessariamente obstáculos.

Manuel incentivou Adelaide a estudar.

Apoiou a formação da mulher.

E partilhou tarefas domésticas numa época em que isso estava muito longe de ser uma expectativa social normal.

A própria Adelaide, muitos anos depois, quando questionada sobre o acontecimento mais importante da sua vida, apontaria o marido.

Não precisamos de diminuir Adelaide para reconhecer esta relação.

Pelo contrário.

A autonomia de uma mulher não exige que todos os homens da sua história sejam transformados em adversários.

Aos 22 anos, fez a instrução primária

Em 1889, Adelaide realizou o exame de instrução primária.

Tinha 22 anos.

Cinco anos depois, em 1894, concluiu o curso liceal com distinção.

Tinha 27.

No ano seguinte matriculou-se na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa.

Tinha 28 anos.

Vale a pena olhar para estas idades.

Não para construir uma narrativa de “nunca é tarde”.

Isso seria demasiado pequeno.

Mas porque mostram como os calendários educativos são profundamente condicionados pelas oportunidades que temos.

Adelaide não chegou tarde à educação.

A educação é que tinha chegado tarde a Adelaide.

E, quando finalmente teve acesso, avançou.

Uma mulher numa escola de Medicina

No final do século XIX, encontrar uma mulher no ensino médico superior português continuava a ser excecional.

Adelaide entrou num espaço essencialmente masculino.

Estudou.

Fez exames.

Prosseguiu.

E escolheu um tema para a tese que dizia já muito sobre aquilo que seria a sua vida profissional.

Em 1900 apresentou:

“A Protecção às Mulheres Grávidas Pobres como Meio de Promover o Desenvolvimento Físico de Novas Gerações.”

Concluiu o curso de Medicina nesse ano, com 33 anos.

O título merece ser lido novamente.

Mulheres.

Gravidez.

Pobreza.

Proteção social.

Saúde das crianças.

Adelaide estava a olhar para medicina e a ver sociedade.

Uma mulher pobre não adoece apenas do corpo

Talvez seja esta uma das ideias mais contemporâneas do pensamento de Adelaide.

As condições de saúde não começam na consulta.

Começam na casa onde se vive.

Na alimentação.

No trabalho.

Na educação.

No dinheiro disponível.

Na gravidez.

No descanso.

Na higiene.

Nas condições em que uma criança nasce e cresce.

Adelaide preocupava-se particularmente com mulheres grávidas pobres e com a saúde materno-infantil.

Defendeu apoios para grávidas.

Reivindicou períodos de descanso antes do parto.

Defendeu melhores condições para mulheres e crianças.

E insistiu na necessidade de uma maternidade pública em Lisboa.

Não estava apenas a tratar doenças.

Estava a perguntar:

que sociedade produz estas condições de saúde?

Medicina e educação encontraram-se

Adelaide não foi apenas médica.

Foi também professora.

Ensinou Higiene e Puericultura no Instituto Feminino de Educação e Trabalho, em Odivelas, durante mais de quinze anos.

Hoje a palavra puericultura parece pertencer a outro tempo.

Naquele contexto, tratava-se de ensinar conhecimentos relacionados com saúde, higiene, desenvolvimento e cuidados infantis.

Adelaide acreditava profundamente no valor da educação das mulheres.

Mas há aqui uma tensão histórica que vale a pena reconhecer.

Parte deste discurso continuava a ligar fortemente a mulher à maternidade.

Ao mesmo tempo, Adelaide utilizava precisamente a educação como instrumento para ampliar a autonomia feminina.

É assim que devemos olhar para figuras históricas.

Não exigir que pensassem exatamente como pensaríamos em 2026.

Perceber o que estavam a tentar transformar no mundo em que efetivamente viviam.

Depois veio o feminismo organizado

Adelaide não queria apenas ajudar mulheres individualmente.

Percebeu que muitos dos problemas que encontrava não podiam ser resolvidos uma mulher de cada vez.

Precisavam de organização.

Leis.

Educação.

Pressão política.

Participação pública.

Juntou-se ao movimento republicano e feminista que se desenvolvia em Portugal no início do século XX.

Em 1909, esteve entre as fundadoras da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, juntamente com mulheres como Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo.

Educação.

Emancipação.

Direitos civis.

Participação política.

Sufrágio.

As mulheres começavam a organizar-se para exigir aquilo que a sociedade não lhes concedia.

1910

A implantação da República trouxe enormes expectativas a muitas destas mulheres.

Tinham participado no movimento republicano.

Tinham escrito.

Organizado.

Discursado.

Mobilizado.

Esperavam que uma República construída em nome da cidadania reconhecesse também a cidadania das mulheres.

Não aconteceu dessa forma.

A República mudou o regime.

Não eliminou a desigualdade entre homens e mulheres.

E Adelaide continuou a exigir aquilo que considerava faltar.

Entre essas exigências estava o direito de voto.

Carolina votou. Adelaide continuou a lutar.

Em 1911, Carolina Beatriz Ângelo conseguiu explorar uma lacuna na legislação eleitoral e tornou-se a primeira mulher a votar numa eleição nacional em Portugal.

Mas aquela vitória não significou sufrágio feminino.

Pelo contrário.

Em 1913, a legislação eleitoral passou a especificar expressamente que os eleitores tinham de ser cidadãos portugueses do sexo masculino.

A porta que Carolina tinha encontrado foi fechada.

Adelaide Cabete continuou a defender o voto das mulheres.

E aqui encontramos novamente duas mulheres desta série Mulheres Incríveis.

Carolina encontrou uma abertura na lei.

Adelaide trabalhou durante décadas para que os direitos das mulheres deixassem de depender de aberturas acidentais.

1914: construir uma organização que pudesse durar

Em 1914, Adelaide Cabete fundou o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas — CNMP.

Não era simplesmente mais um pequeno grupo.

Pretendia reunir associações femininas e feministas numa estrutura capaz de articular diferentes causas relacionadas com mulheres e crianças.

Adelaide presidiu ao Conselho durante cerca de vinte anos.

E o programa era extraordinariamente amplo.

As mulheres do Conselho defenderam:

educação e instrução feminina;

formação profissional;

acesso ao trabalho;

igualdade salarial;

direito de voto;

coeducação;

proteção das mulheres trabalhadoras;

alterações ao Código Civil;

combate à prostituição regulamentada;

combate à dupla moral sexual;

proteção das crianças;

pacifismo.

O Conselho publicou também durante décadas um boletim e organizou conferências, congressos, petições e outras iniciativas públicas.

Isto já não era apenas opinião.

Era infraestrutura.

Uma coisa é ter uma ideia. Outra é construir uma instituição.

Talvez este seja um dos aspetos mais importantes de Adelaide Cabete.

É relativamente fácil admirar figuras históricas pelas frases que disseram.

Mais difícil é perceber o trabalho necessário para criar organizações.

Reunir pessoas.

Convocar reuniões.

Escrever documentos.

Publicar boletins.

Preparar congressos.

Criar redes internacionais.

Responder a divergências.

Manter uma instituição viva.

Voltar a insistir.

Ano após ano.

Adelaide fez isso.

O feminismo português não avançou apenas através de gestos individuais extraordinários.

Avançou também porque mulheres se organizaram.

E perceberam que não estavam sozinhas

O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas ligou-se ao International Council of Women.

Isto permitia às ativistas portuguesas acompanhar discussões que estavam a acontecer noutros países e inserir as reivindicações nacionais num movimento internacional mais amplo.

Direitos políticos.

Educação.

Trabalho.

Saúde.

Proteção social.

Prostituição.

Tráfico de mulheres.

Paz.

As questões atravessavam fronteiras.

E as mulheres também.

Adelaide não lutava apenas pelo voto

Quando contamos a história do feminismo, existe uma tendência para fazer do sufrágio a história inteira.

Foi fundamental.

Mas não era tudo.

Adelaide preocupou-se com aquilo que acontecia antes e depois de uma mulher entrar numa assembleia de voto.

Ela tinha educação?

Podia trabalhar?

Recebia o mesmo?

Tinha conhecimento sobre o próprio corpo?

Tinha proteção durante a gravidez?

Os filhos tinham condições de saúde?

A lei tratava-a como cidadã autónoma?

Podia participar na vida pública?

Estava protegida contra exploração?

O voto era uma peça de uma transformação muito maior.

Também falou sobre prostituição

Adelaide foi uma figura importante do movimento abolicionista português relativo à prostituição regulamentada.

É importante explicar a palavra.

“Abolicionismo”, neste contexto histórico, não significava simplesmente querer que a prostituição desaparecesse através da punição das mulheres.

O movimento criticava sobretudo o sistema de regulamentação que submetia mulheres prostituídas a vigilância, inscrição e controlo sanitário específicos.

Havia aí uma questão que incomodava profundamente muitas feministas:

a dupla moral.

A sociedade controlava o corpo das mulheres enquanto a procura masculina permanecia muito menos questionada.

Adelaide participou neste debate e, no Congresso Nacional Abolicionista de 1926, defendeu também a criação de uma polícia feminina.

Alguns anos depois, em 1930, as primeiras mulheres seriam admitidas na polícia de Lisboa, embora inicialmente com funções bastante limitadas.

Nem tudo em Adelaide nos parecerá contemporâneo

E ainda bem que não escondemos isso.

Adelaide pertenceu ao seu tempo.

Algumas ideias higienistas e eugenistas que circularam entre médicos, reformadores sociais e diferentes movimentos políticos no início do século XX aparecem também no universo intelectual em que trabalhou. Investigação histórica identifica-a entre os divulgadores de ideias relacionadas com eugenia e puericultura.

Isto precisa de contexto.

A eugenia teve diferentes correntes e significados históricos, mas viria também a sustentar políticas coercivas e profundamente violadoras de direitos humanos em diferentes países.

Não precisamos de apagar esta dimensão para preservar uma heroína perfeita.

Adelaide não precisa de ser perfeita.

Nenhuma mulher da Feniks precisa.

Podemos reconhecer aquilo que transformou e, simultaneamente, estudar criticamente ideias do seu tempo que hoje exigem outra leitura.

É precisamente isso que significa tratar uma mulher histórica como uma pessoa e não como uma estátua.

E depois, Angola

Em 1929, já com mais de 60 anos, Adelaide mudou-se para Angola, onde vivia um sobrinho.

Continuou a exercer medicina.

Continuou a interessar-se pela vida pública.

E aconteceu ali mais um episódio extraordinário da sua biografia.

Em 1933, participou na votação relativa à Constituição portuguesa.

Fontes da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género identificam-na como a primeira e única mulher a votar em Luanda nessa consulta.

Tinha 66 anos.

Mais de duas décadas tinham passado desde o voto de Carolina Beatriz Ângelo.

O sufrágio feminino continuava longe de ser universal e igualitário em Portugal.

Uma vitória não é o mesmo que igualdade

Este ponto é essencial.

É fácil construir uma linha histórica bonita:

Carolina votou.

Adelaide votou.

As mulheres conquistaram o voto.

Não foi assim.

Durante décadas, a legislação portuguesa estabeleceu requisitos diferentes para homens e mulheres.

O acesso das mulheres ao voto foi limitado por critérios específicos de escolaridade, situação familiar e outras condições.

A igualdade política plena demoraria muito mais.

As histórias individuais de mulheres que conseguiram votar são importantes precisamente porque mostram aquilo que ainda faltava.

Uma exceção não é igualdade.

É uma exceção.

Voltou a Portugal

Adelaide regressou a Lisboa em 1934.

Morreu no ano seguinte, a 14 de setembro de 1935.

Tinha 68 anos.

Morreu num Portugal muito diferente daquele que imaginara nas primeiras décadas do movimento republicano.

O Estado Novo consolidava-se.

A participação política estava novamente limitada.

E o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas continuaria a existir sem ela até 1947, quando seria dissolvido pelo regime.

Mas as questões que Adelaide colocara não desapareceram.

O que ficou?

Ficou a história de uma médica.

Mas seria muito pouco dizer apenas isso.

Ficou uma maneira de relacionar problemas que durante demasiado tempo foram tratados separadamente.

Educação das mulheres.

Saúde.

Maternidade.

Pobreza.

Trabalho.

Participação política.

Proteção social.

Direitos civis.

Adelaide compreendeu que uma mulher não se torna verdadeiramente autónoma apenas porque lhe concedemos um direito isolado.

De que serve dizer a uma mulher que pode participar na sociedade se não teve acesso à educação?

De que serve permitir-lhe trabalhar sem condições dignas?

De que serve falar de maternidade ignorando pobreza e saúde?

De que serve reconhecer capacidade intelectual às mulheres e continuar a impedir-lhes participação política?

As respostas exigiam mais do que uma reforma.

Exigiam transformação.

E talvez a parte mais extraordinária comece aos 22 anos

Voltemos àquela idade.

Adelaide faz o exame de instrução primária.

Não é uma criança prodígio.

Não entrou precocemente numa universidade.

Não teve desde pequena acesso a todas as oportunidades.

Começou formalmente tarde.

E talvez esta seja uma história especialmente importante num mundo obcecado com percursos lineares.

Escola.

Universidade.

Carreira.

Promoção.

Sucesso.

Tudo dentro do calendário esperado.

A vida de Adelaide mostra outra coisa.

Um percurso atrasado pelas circunstâncias não é uma vida atrasada.

Ela começou onde pôde.

E continuou.

Mas não transformemos a desigualdade numa história inspiradora

Também aqui precisamos de cuidado.

É bonito pensar:

“Se Adelaide conseguiu, qualquer pessoa consegue.”

Não.

Não é isso que a história demonstra.

Muitas mulheres igualmente inteligentes nunca tiveram oportunidade.

Muitas trabalharam desde crianças.

Muitas não encontraram alguém que as apoiasse.

Muitas nunca tiveram dinheiro.

Tempo.

Escola.

Liberdade.

A exceção não prova que o sistema funcionava.

Prova precisamente que o sistema desperdiçava mulheres.

Talvez seja essa uma das lições mais importantes da vida de Adelaide Cabete.

Talento existe em todos os lugares.

Oportunidade, não.

Porque devemos conhecer Adelaide Cabete?

Porque ajuda a compreender que os direitos que hoje parecem normais tiveram história.

Mulheres na universidade.

Mulheres médicas.

Educação feminina.

Proteção da maternidade.

Participação política.

Voto.

Trabalho.

Igualdade salarial.

Educação sexual.

Presença das mulheres nas instituições.

Nada disto apareceu espontaneamente.

Houve pessoas que escreveram.

Ensinaram.

Fundaram associações.

Organizaram congressos.

Apresentaram petições.

Fizeram discursos.

Discordaram entre si.

Insistiram.

Adelaide foi uma delas.

Porque é uma Mulher Incrível?

Não porque tenha começado pobre e terminado médica.

Essa narrativa seria demasiado simples.

Não porque tenha conseguido aquilo que tantas outras mulheres não conseguiram.

E não porque todas as ideias que defendeu devam ser celebradas sem contexto ou análise crítica.

Adelaide Cabete merece ser conhecida porque transformou o acesso que conquistou ao conhecimento numa ferramenta para ampliar os direitos e as possibilidades de outras mulheres.

Estudou Medicina.

Exerceu.

Ensinou.

Defendeu mulheres grávidas pobres.

Pensou saúde para além da doença.

Reivindicou educação.

Defendeu participação política.

Lutou pelo sufrágio.

Fundou instituições.

Criou redes.

Organizou mulheres.

E percebeu uma coisa que continua profundamente atual:

não basta abrir uma porta para uma mulher excecional conseguir passar.

É preciso perguntar porque estava a porta fechada.

E depois trabalhar para que fique aberta.

Para todas.

Adelaide Cabete (1867–1935)
Médica, professora, republicana, sufragista e ativista pelos direitos das mulheres.

Mulheres Incríveis
Histórias de mulheres que vale a pena conhecer.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *