Fernanda Ribeiro: a mulher que sabia quando era hora de acelerar

São 25 voltas a uma pista de atletismo. Dez quilómetros em que é preciso correr depressa, mas também saber esperar. Em Atlanta, em 1996, Fernanda Ribeiro esperou quase até ao fim. Quando chegou a última volta, estava entre as melhores do mundo. Quando chegou a reta final, decidiu a corrida. Tornou-se campeã olímpica dos 10 000 metros. Mas aquela vitória não apareceu de repente: tinha sido campeã europeia, campeã mundial e construíra, durante anos, uma das maiores carreiras da história do atletismo português.

400 metros.

Outra vez.

400 metros.

Outra vez.

Até completar 10 000.

Vinte e cinco voltas.

Não há uma paisagem que mude.

Não há uma estrada que desapareça no horizonte.

Há uma pista.

Uma curva.

Uma reta.

Outra curva.

Outra reta.

E o relógio.

Os 10 000 metros parecem uma prova de resistência.

São.

Mas não apenas.

São também uma prova de atenção.

Quem está a acelerar?

Quem está a gastar demasiado?

Quem está confortável?

Quem está apenas a parecer confortável?

Devemos responder a um ataque?

Ou esperar?

É preciso correr.

Mas é preciso pensar enquanto se corre.

Fernanda Ribeiro tornou-se uma das melhores do mundo a fazer exatamente isso.

Penafiel, 1969

Fernanda Ribeiro nasceu a 23 de junho de 1969, em Penafiel.

Começou cedo no atletismo.

Muito cedo.

Ainda adolescente já competia internacionalmente.

Não surgiu no atletismo português aos 25 anos como uma campeã pronta.

Cresceu dentro da modalidade.

Competiu.

Aprendeu.

Mudou distâncias.

Acumulou experiência.

E demorou anos até chegar ao período em que se tornaria praticamente incontornável no fundo europeu e mundial.

Isto é importante.

Porque conhecemos as atletas através das medalhas.

Mas as carreiras são construídas muito antes do pódio.

Antes dos 10 000 metros

Fernanda não começou por ser “a atleta dos 10 000”.

Competiu em diferentes distâncias do meio-fundo e fundo.

1500 metros.

10 000.

Estrada.

Corta-mato.

Essa diversidade ajudou a construir uma característica que se tornaria particularmente importante.

Velocidade no final de provas longas.

Nos 10 000 metros, isso podia transformar completamente uma corrida.

Uma atleta pode ter resistência suficiente para acompanhar o grupo durante nove quilómetros e perder tudo nos últimos 400 metros.

Fernanda tinha uma arma para esse momento.

O final.

Mas uma chegada rápida só serve se conseguirmos chegar lá

Parece evidente.

Não é.

Para utilizar velocidade na última volta de uma corrida de 10 000 metros, é preciso primeiro sobreviver às outras 24.

É necessário gerir esforço.

Manter contacto.

Responder quando necessário.

Evitar responder quando não é necessário.

E conservar alguma coisa quando o corpo já gastou quase tudo.

O talento de Fernanda estava também nessa combinação.

Resistência suficiente para permanecer.

Velocidade suficiente para decidir.

1994: campeã da Europa

Helsínquia.

Campeonatos da Europa de Atletismo.

Fernanda Ribeiro tinha 25 anos.

Correu os 10 000 metros em 31:08,75.

Ganhou.

Campeã da Europa.

E houve outro detalhe extraordinário naquele pódio.

A segunda classificada também era portuguesa.

Conceição Ferreira.

Portugal fez primeiro e segundo lugares nos 10 000 metros femininos.

Fernanda Ribeiro.

Conceição Ferreira.

Duas portuguesas à frente do resto da Europa.

Vale a pena parar aqui.

Porque quando contamos grandes atletas individualmente, corremos o risco de esquecer o contexto em que apareceram.

Portugal tinha construído uma tradição extraordinária nas corridas de fundo.

Carlos Lopes.

Rosa Mota.

Albertina Dias.

Conceição Ferreira.

Manuela Machado.

Fernanda Ribeiro.

E outras.

A década de 1990 seria particularmente impressionante para o atletismo feminino português.

Fernanda fazia parte dessa história.

Mas estava prestes a construir a sua.

Gotemburgo, 1995

Um ano depois.

Campeonatos do Mundo.

Agora já não era suficiente ser a melhor da Europa.

Estavam ali as melhores do mundo.

Fernanda correu os 10 000 metros.

E venceu.

Campeã mundial.

A World Athletics coloca essa vitória de 1995 no centro de uma década em que as atletas portuguesas tiveram uma presença extraordinária no fundo internacional.

Em dois anos:

campeã europeia;

campeã mundial.

Faltava a maior prova.

Atlanta

Jogos Olímpicos de 1996.

Fernanda chegou aos Estados Unidos como campeã mundial.

Já não podia surpreender ninguém.

Era uma das mulheres a vencer.

Isso muda tudo.

Quando somos desconhecidas, os outros podem subestimar-nos.

Quando somos campeãs mundiais, observam-nos.

Conhecem o nosso final.

Conhecem os nossos resultados.

Sabem aquilo que podemos fazer.

A estratégia passa também por tentar impedir que façamos precisamente aquilo que fazemos melhor.

2 de agosto de 1996

Final feminina dos 10 000 metros.

Atlanta.

Entre as adversárias estava Wang Junxia, da China, uma das grandes figuras do fundo mundial.

Estavam também Derartu Tulu, campeã olímpica dos 10 000 metros em 1992, Gete Wami, Tegla Loroupe e outras atletas de enorme qualidade.

Vinte e cinco voltas.

A corrida avançou.

O grupo foi-se reduzindo.

E Fernanda continuou lá.

Esperar também é correr

Esta é talvez a parte mais interessante dos 10 000 metros.

Quem vê uma corrida pode ter a sensação de que a atleta que não está na frente está apenas a seguir.

Não está.

Está a decidir.

Quanto gastar.

Quando responder.

Onde posicionar-se.

Que adversária observar.

Uma prova longa pode ser perdida por uma decisão tomada vários quilómetros antes da meta.

Fernanda sabia esperar.

E Atlanta chegou àquilo que lhe interessava.

Uma decisão no final.

Última volta

O ouro ficou reduzido essencialmente a duas mulheres.

Fernanda Ribeiro.

Wang Junxia.

A chinesa tentou afastar-se.

Fernanda respondeu.

Ainda estavam juntas quando entraram nos últimos metros.

E então aconteceu aquilo para que milhares de quilómetros de treino tinham preparado Fernanda.

Acelerar quando já quase não há nada para acelerar.

Passou Wang.

Correu para a meta.

31 minutos, 1 segundo e 63 centésimos.

Wang terminou em 31:02,58.

Menos de um segundo separou ouro e prata.

Depois de 10 000 metros.

Menos de um segundo.

Campeã olímpica

Fernanda Ribeiro tinha 27 anos.

Portugal tinha uma nova campeã olímpica.

Depois de Carlos Lopes em 1984 e Rosa Mota em 1988, tornou-se a terceira atleta portuguesa a conquistar um título olímpico.

E a segunda mulher portuguesa.

Outra corredora de fundo.

Outra medalha de ouro.

Mas uma prova completamente diferente da maratona de Rosa.

Rosa tinha 42,195 quilómetros para construir a vitória.

Fernanda tinha uma pista.

25 voltas.

E uma última volta que precisava de ser perfeita.

Uma corrida pode durar meia hora e decidir-se num instante

Talvez seja isto que torna Atlanta tão fascinante.

31 minutos de corrida.

E tudo acaba por depender de segundos.

Parece contraditório.

Não é.

O instante final só existe porque todo o resto foi bem feito.

Não se ganha a última volta se chegarmos lá sem energia.

Não se utiliza velocidade se perdemos contacto cinco quilómetros antes.

Não se escolhe o momento se não conseguimos permanecer entre as melhores.

O ataque final é aquilo que vemos.

A gestão anterior é aquilo que o tornou possível.

Depois do ouro

Uma medalha olímpica pode tornar-se um ponto final perfeito numa biografia.

Fernanda não terminou ali.

Em 1997 voltou aos Campeonatos do Mundo, em Atenas.

Nos 10 000 metros conquistou a medalha de prata.

E competiu também nos 5000 metros, onde terminou em terceiro lugar.

No Mundial de pista coberta desse mesmo ano, em Paris, conquistou ainda o bronze nos 3000 metros.

Uma atleta não se resume a uma noite olímpica.

Fernanda continuava entre as melhores do mundo em diferentes distâncias.

Mas nenhuma carreira é uma linha sempre ascendente

Esta também é uma parte importante.

Depois de chegarmos ao topo, existe uma narrativa muito tentadora:

continuar sempre.

Mais rápido.

Mais medalhas.

Mais vitórias.

A vida desportiva não funciona assim.

Há lesões.

Mudanças no corpo.

Adversárias novas.

Temporadas melhores.

Temporadas piores.

Idade.

Recuperação.

O desporto de alto rendimento é precisamente interessante porque ninguém recebe garantia de permanência.

Ser campeã ontem não reserva um lugar no pódio amanhã.

É preciso voltar à pista.

Sydney, 2000

Quatro anos depois de Atlanta, Fernanda voltou aos Jogos Olímpicos.

Agora tinha 31 anos.

Não era a mulher que procurava conquistar o primeiro título.

Era a campeã olímpica em título.

E o cenário internacional tinha mudado.

Entre as adversárias estavam Derartu Tulu, Gete Wami, Paula Radcliffe, Tegla Loroupe e Sonia O’Sullivan.

A final foi muito rápida.

Paula Radcliffe impôs um ritmo elevado durante grande parte da prova.

O grupo foi sendo destruído pelo andamento.

Fernanda permaneceu entre as primeiras.

No final, Derartu Tulu venceu.

Gete Wami ficou em segundo.

Fernanda terminou em terceiro.

Bronze olímpico.

Ouro em Atlanta. Bronze em Sydney.

Poderíamos ler assim:

Fernanda tinha descido dois lugares.

Mas olhemos para o relógio.

Atlanta, 1996:

31:01,63.

Sydney, 2000:

30:22,88.

Em Sydney, Fernanda correu os 10 000 metros quase 39 segundos mais depressa do que na final em que tinha conquistado o ouro.

E estabeleceu um recorde nacional português.

Esta talvez seja uma das melhores histórias que o desporto nos pode contar.

Uma medalha não mede tudo

Ouro.

Bronze.

Se olharmos apenas para a cor, Atlanta foi melhor.

Naturalmente.

Uma campeã olímpica é uma campeã olímpica.

Mas, se perguntarmos em que prova Fernanda correu mais depressa, a resposta é Sydney.

Aos 31 anos.

Quatro anos depois do ouro.

Terceira classificada.

Melhor versão cronométrica de si própria.

Isto obriga-nos a separar duas coisas que frequentemente confundimos:

resultado e desempenho.

Não são iguais.

Podemos fazer o melhor trabalho da nossa vida e encontrar duas pessoas que, naquele dia, fazem melhor.

Podemos ganhar uma competição sem produzir o melhor desempenho da carreira.

O lugar depende dos outros.

A evolução também pode ser medida contra nós próprias.

Talvez o desporto seja particularmente honesto nisso

30:22,88.

O relógio não pergunta se ganhou.

Regista.

Fernanda saiu de Sydney com bronze.

E com a prova mais rápida da sua vida nos 10 000 metros.

O resultado dizia:

terceira.

O cronómetro dizia:

nunca correste tão depressa.

As duas coisas eram verdadeiras.

Não precisamos de escolher uma delas

Esta é uma ideia que ultrapassa o atletismo sem precisarmos de transformar uma corrida numa frase motivacional.

Resultados são importantes.

Fernanda queria medalhas.

Queria ganhar.

Era atleta de alta competição.

Não precisamos de fingir que “o importante é participar”.

No alto rendimento, ganhar importa.

Mas analisar uma carreira apenas através de vitórias também empobrece aquilo que aconteceu.

Sydney demonstra-o de forma quase matemática.

Bronze.

Recorde nacional.

Na mesma corrida.

E Fernanda pertence a uma geração extraordinária

Há outra história que merece ser contada.

O atletismo feminino português viveu nas décadas de 1980 e 1990 um período extraordinário nas provas de fundo e meio-fundo.

Rosa Mota.

Albertina Dias.

Conceição Ferreira.

Manuela Machado.

Fernanda Ribeiro.

Carla Sacramento.

Entre outras.

A World Athletics recorda precisamente a sequência de resultados portugueses: Albertina Dias campeã mundial de corta-mato em 1993; Fernanda campeã europeia dos 10 000 metros em 1994 e mundial em 1995; Manuela Machado campeã mundial da maratona em 1995; Carla Sacramento campeã mundial dos 1500 metros em 1997.

Não era uma mulher extraordinária num deserto.

Era uma atleta extraordinária dentro de uma geração extraordinária.

E isso torna a história ainda melhor.

Porque excelência também se constrói coletivamente

Um atleta corre sozinho.

Mas o atletismo não é construído sozinho.

Treinadores.

Clubes.

Companheiras.

Adversárias.

Federações.

Competições.

Referências anteriores.

Conhecimento acumulado.

Uma geração ajuda a tornar possível a seguinte.

Carlos Lopes e Rosa Mota tinham mostrado que Portugal podia vencer nas maiores provas do fundo mundial.

Fernanda não precisava de repetir as suas carreiras.

Podia construir outra.

Na pista.

Nos 10 000 metros.

Com uma assinatura própria.

Vinte e cinco voltas

Talvez seja esta a imagem que vale a pena guardar.

Fernanda na pista.

Uma volta.

Outra.

Outra.

Ainda não.

Ainda não.

Ainda não.

E depois:

agora.

Existe inteligência nisso.

Não apenas resistência.

Não apenas velocidade.

Timing.

A capacidade de perceber que uma corrida não precisa de ser ganha desde o primeiro metro.

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