Agustina Bessa-Luís: a mulher que escrevia o que os outros preferiam não ver

Escreveu sobre famílias como quem abre uma casa fechada há décadas: não para admirar os móveis, mas para descobrir aquilo que estava escondido nas gavetas. Agustina Bessa-Luís conhecia o poder, o dinheiro, o desejo, o ressentimento, as aparências — e conhecia particularmente bem as mulheres que aprenderam a existir dentro deles.

Há escritores que contam histórias.

Agustina parecia fazer outra coisa.

Observava.

Uma família.

Um casamento.

Uma herança.

Uma casa.

Uma mulher.

Uma frase aparentemente inocente.

E depois começava a retirar camadas.

Debaixo da educação encontrava ambição.

Debaixo do amor, poder.

Debaixo da generosidade, interesse.

Debaixo da tradição, medo.

Debaixo de uma mulher aparentemente submissa podia encontrar alguém que compreendia perfeitamente quem mandava naquela casa.

Agustina Bessa-Luís passou mais de meio século a fazer isso.

Talvez seja por isso que lê-la nem sempre seja confortável.

Agustina não escrevia para nos tranquilizar.

Escrevia para perceber as pessoas.

E não tinha delas uma visão particularmente ingénua.

Uma menina que decidiu que seria escritora

Agustina Bessa-Luís nasceu a 15 de outubro de 1922, em Vila Meã, Amarante.

Chamava-se Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa.

Cresceu entre o Douro e o Minho, num universo de famílias, propriedades, memórias, hierarquias sociais e histórias transmitidas de geração em geração.

Esse Norte português tornar-se-ia muito mais do que cenário.

Entraria profundamente na sua literatura.

As casas.

As famílias antigas.

A propriedade.

O dinheiro.

A reputação.

As relações entre gerações.

Os segredos.

As mulheres que conheciam as regras do mundo em que viviam e aprendiam a utilizá-las.

Tudo isso regressaria aos seus livros.

Agustina começou cedo a escrever.

E há alguma coisa particularmente interessante na forma como construiu o seu percurso:

não esperou que alguém lhe atribuísse a identidade de escritora.

Escreveu.

Continuou a escrever.

E acabou por construir uma das obras mais extensas e singulares da literatura portuguesa contemporânea.

Até que apareceu Quina

Agustina publicou o primeiro romance, Mundo Fechado, em 1948.

Mas foi alguns anos depois que aconteceu a mudança decisiva.

Em 1954 publicou A Sibila.

E a literatura portuguesa ganhou Quina.

Joaquina Augusta.

Uma mulher rural.

Solteira.

Inteligente.

Prática.

Autoritária.

Perspicaz.

Uma mulher capaz de administrar propriedade, perceber pessoas e exercer influência num mundo em que o poder formal pertencia sobretudo aos homens.

A Sibila teve enorme impacto e trouxe a Agustina um reconhecimento decisivo. O Instituto Camões identifica precisamente o romance como a obra que, em 1954, lhe deu reconhecimento geral pela maturidade da sua criação literária.

Mas Quina merece que fiquemos um pouco mais com ela.

Porque não é uma heroína construída para agradar.

E isso é profundamente Agustina.

As mulheres de Agustina não precisam de ser exemplares

Há uma tentação contemporânea quando recuperamos grandes personagens femininas:

queremos transformá-las em símbolos de emancipação.

Agustina não nos facilita esse trabalho.

As mulheres dos seus livros podem ser inteligentes e cruéis.

Dependentes e manipuladoras.

Generosas e calculistas.

Fortes num momento e vulneráveis no seguinte.

Podem desejar dinheiro.

Poder.

Amor.

Segurança.

Reconhecimento.

Liberdade.

Podem usar as regras que as limitam para conseguirem aquilo que querem.

E podem reproduzir essas mesmas regras sobre outras pessoas.

Não existem para representar “a mulher”.

Existem como personagens.

Inteiras precisamente porque são contraditórias.

Talvez seja esta uma das razões pelas quais continuam interessantes.

Agustina não precisava de tornar uma mulher moralmente exemplar para lhe reconhecer inteligência, agência ou poder.

Quem manda realmente nesta casa?

Essa poderia ser uma pergunta escondida em muitos livros de Agustina.

Porque o poder lhe interessava.

Não apenas o poder político ou institucional.

O poder quotidiano.

Quem decide.

Quem possui.

Quem herda.

Quem sabe.

Quem influencia.

Quem precisa de parecer fraco para conseguir ser forte.

Quem controla o dinheiro.

Quem controla a memória da família.

Quem pode partir.

Quem precisa de ficar.

E quem parece obedecer, mas afinal conhece melhor do que ninguém as regras do jogo.

A Fundação Gulbenkian assinala precisamente a presença destacada das mulheres na obra de Agustina e a forma como a escritora questionou frequentemente o seu lugar na sociedade.

Mas Agustina raramente transforma essas relações numa equação simples entre vítimas e culpados.

As pessoas são mais complicadas.

E o poder também.

Uma escritora difícil de arrumar

Tentaram classificá-la.

Neo-romancista.

Herdeira de Camilo Castelo Branco.

Próxima de Balzac.

Associada a determinadas tradições do romance europeu.

As comparações ajudam.

Mas não resolvem Agustina.

A própria Fundação Gulbenkian descreve muitos dos seus textos como difíceis de classificar dentro das correntes literárias.

Talvez porque os romances dela não avançam sempre da maneira que esperamos que um romance avance.

Agustina interrompe.

Comenta.

Desvia-se.

Observa.

Faz uma afirmação sobre uma personagem e, algumas páginas depois, obriga-nos a reconsiderá-la.

Às vezes parece que estamos a acompanhar uma história.

De repente estamos a ler uma reflexão sobre dinheiro, casamento, desejo, natureza humana ou sociedade.

E depois regressamos à história.

Ou talvez nunca tenhamos saído dela.

Ler Agustina exige atenção.

Não porque a literatura deva ser difícil para ser boa.

Mas porque ela não simplifica aquilo que considera complexo.

E escrevia muito

Muito.

Ao longo da vida, Agustina publicou dezenas de obras.

Romances.

Contos.

Ensaios.

Biografias.

Teatro.

Livros para crianças.

Crónicas.

Memórias.

Textos difíceis até de colocar numa única categoria.

A Gulbenkian contabiliza cerca de cinquenta obras publicadas, atravessando diferentes géneros literários.

Essa dimensão da sua carreira também merece atenção.

Não estamos perante uma escritora definida por um único grande livro.

A Sibila poderia ter bastado para lhe assegurar um lugar importante na literatura portuguesa.

Mas Agustina continuou.

Durante décadas.

Escrever mulheres sem as explicar demasiado

Há algo particularmente moderno na maneira como Agustina escreve muitas das suas personagens femininas.

Não pede desculpa por elas.

Também não as justifica constantemente.

Uma mulher pode querer ascender socialmente.

Pode desejar.

Pode usar alguém.

Pode ser usada.

Pode dominar uma família.

Pode recusar aquilo que esperam dela.

Pode aceitar exatamente aquilo que esperam dela porque percebe que essa também é uma forma de obter poder.

Agustina observa tudo isso sem transformar automaticamente as personagens em lições.

E talvez seja importante recordarmos isto quando contamos histórias de mulheres reais.

Complexidade não diminui uma mulher.

Não precisamos de apagar contradições para reconhecer relevância.

Não precisamos de transformar vidas em parábolas de superação.

Nem todas as mulheres interessantes são exemplares.

Nem têm de ser.

Agustina sabia isso muito antes de transformarmos “mulheres fortes” numa categoria.

Vale Abraão

Décadas depois de A Sibila, outra mulher ficaria particularmente associada ao universo de Agustina.

Ema.

Em 1991, Agustina publicou Vale Abraão, escrito a partir de um desafio relacionado com Madame Bovary, de Gustave Flaubert.

Mas Ema não é simplesmente uma Emma Bovary portuguesa.

É outra mulher.

Outro lugar.

Outro tempo.

Outro universo social.

E, novamente, Agustina escreve desejo feminino sem precisar de o transformar numa tese.

Ema deseja.

Observa.

Experimenta.

Desafia.

Provoca.

Procura.

Desilude-se.

E existe num mundo onde os outros também tentam defini-la.

Pouco depois, Vale Abraão chegaria ao cinema pelas mãos de Manoel de Oliveira.

Agustina e Manoel

Da relação entre a escrita de Agustina e o cinema de Manoel de Oliveira nasceu uma das colaborações culturais mais importantes da segunda metade do século XX português.

Vale Abraão foi adaptado ao cinema em 1993.

As Terras do Risco esteve na origem de O Convento, de 1995.

O Princípio da Incerteza chegaria também ao cinema em 2002.

A Gulbenkian destaca precisamente estas adaptações na projeção da obra de Agustina.

É interessante pensar no encontro.

Dois autores com linguagens profundamente próprias.

Literatura e cinema.

Não se tratava simplesmente de transformar livros em filmes.

Era uma obra a conversar com outra.

E isso ajudou também a levar o universo de Agustina a públicos que talvez nunca tivessem aberto um dos seus romances.

Mas Agustina não ficou fechada no escritório

É fácil imaginar uma escritora desta dimensão rodeada apenas por livros.

A vida pública de Agustina foi mais ampla.

Foi membro da Academia das Ciências de Lisboa.

Teve responsabilidades culturais e institucionais.

Entre as funções públicas que exerceu esteve a direção do Teatro Nacional D. Maria II.

Escreveu para jornais e revistas.

Participou no debate cultural português.

Comentou literatura, sociedade, política, religião, história, comportamento.

Nem sempre de maneira consensual.

Agustina não parecia particularmente interessada em sê-lo.

E talvez seja importante não transformar isso numa virtude automática.

Discordar não torna ninguém necessariamente mais lúcido.

Mas há valor intelectual em alguém que preserva uma voz própria mesmo quando sabe que essa voz pode incomodar.

Não precisamos de concordar com Agustina para a ler

Talvez esta seja uma das melhores maneiras de nos aproximarmos dela.

Agustina não precisa de ser convertida numa autora cujas opiniões subscreveríamos hoje.

Uma grande escritora não é um manual de instruções morais.

Podemos discordar.

Questionar.

Sentirmo-nos desconfortáveis.

Encontrar afirmações que pertencem claramente a outro contexto.

E continuar a reconhecer a inteligência extraordinária com que observou comportamentos humanos.

Ler não significa obedecer.

Significa entrar numa conversa.

E Agustina deixou-nos milhares de páginas para conversar.

O reconhecimento chegou

Ao longo da carreira, recebeu dezenas de prémios e distinções.

Em 2004, recebeu o Prémio Camões, a mais importante distinção literária da língua portuguesa. Tinha 81 anos.

Já então a obra estava traduzida em diferentes línguas e várias das suas histórias tinham atravessado a literatura para chegar ao cinema.

Mas talvez um prémio tenha dificuldade em explicar o que torna um escritor importante.

Porque o verdadeiro teste acontece depois.

Quando as décadas passam.

Quando os contextos mudam.

Quando aparecem novos leitores.

E quando abrimos novamente um livro.

Uma escritora que nunca facilitou o leitor

Agustina não nos entrega personagens prontas para amar.

Nem conclusões prontas para repetir.

É possível ler uma frase sua e parar.

Voltar atrás.

Ler novamente.

Não porque não tenhamos percebido as palavras.

Mas porque talvez tenhamos percebido demasiado depressa.

Há uma inteligência aforística na sua escrita.

Uma capacidade de observar uma pessoa e, numa frase, deslocar a nossa interpretação.

Agustina desconfiava das explicações simples.

Talvez porque também desconfiava da simplicidade humana.

Somos aquilo que dizemos.

E aquilo que escondemos.

Aquilo que desejamos.

Aquilo que julgamos desejar.

Aquilo que fazemos quando ninguém vê.

E aquilo que fazemos precisamente porque alguém está a ver.

Esse território era dela.

A última obra

Em 2006 publicou A Ronda da Noite.

Seria o seu último romance.

Nesse mesmo ano afastou-se da vida pública por razões de saúde.

Depois veio um longo silêncio editorial.

Uma circunstância particularmente marcante numa mulher que passara tantas décadas a escrever.

Agustina morreu no Porto, a 3 de junho de 2019.

Tinha 96 anos.

Deixou uma obra suficientemente grande para continuar a ser descoberta durante gerações.

Mas talvez tenha deixado outra coisa.

Uma maneira de olhar.

Porque continuamos a ler Agustina?

Porque as famílias continuam complicadas.

Porque o dinheiro continua a alterar relações.

Porque o desejo continua a contradizer aquilo que dizemos querer.

Porque a classe social continua a existir mesmo quando preferimos fingir que desapareceu.

Porque homens e mulheres continuam a negociar poder dentro das relações mais íntimas.

Porque uma casa continua a poder guardar décadas de ressentimento.

Porque ninguém é exatamente aquilo que parece.

E porque Agustina percebeu uma coisa que talvez continuemos a resistir a aceitar:

conhecer uma pessoa não significa necessariamente conseguir explicá-la.

Talvez por isso as personagens dela permaneçam.

Não são problemas resolvidos.

São pessoas.

Porque é uma Mulher Incrível?

Não porque tenha escrito dezenas de livros.

Não porque tenha recebido o Prémio Camões.

Não porque tenha sido uma “mulher forte”.

E não porque devamos concordar com tudo aquilo que disse, escreveu ou pensou.

Agustina Bessa-Luís merece ser conhecida porque construiu uma linguagem literária inconfundível e uma das obras mais singulares da literatura portuguesa contemporânea.

Porque escreveu mulheres com inteligência, desejo, poder, fragilidade, crueldade, humor e contradição.

Porque não precisou de tornar as suas personagens exemplares para lhes conceder importância.

Porque olhou para aquilo que acontece dentro das famílias, das casas e das relações e percebeu que também ali se decide quem tem poder.

E porque nos deixou uma literatura que não oferece respostas rápidas.

Obriga-nos a permanecer.

A observar.

A desconfiar da primeira explicação.

E a olhar outra vez.

Talvez seja isso que fazem os grandes escritores.

Não nos dizem simplesmente aquilo que devemos ver.

Alteram a maneira como vemos.

Agustina Bessa-Luís (1922–2019)
Escritora portuguesa, autora de A Sibila, Fanny Owen, Vale Abraão e de uma vasta obra de ficção, ensaio, teatro, biografia e literatura para crianças.

Mulheres Incríveis
Histórias de mulheres que vale a pena conhecer.

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